Bonsai

Bonsai é uma planta em miniatura. Arte japonesa que consiste em domar ao extremo a natureza. Árvores anãs retorcidas, pousadas sobre pequenos vasos rasos. A técnica passa por podas frequentes de galhos e raízes.

Sinto uma estranheza ao me deparar com bonsais, não me faz bem vê-los. Vez que outra, brinco que sou de um hipotético “comando de libertação dos bonsais”. Na minha imaginação, eles estariam presos, como pássaros em gaiola. Portanto, urgiria tirá-los dos vasos e deixá-los ser o que poderiam ser na natureza.

Levei um tempo para descobrir a razão do incômodo. É até bem óbvio, eu me sinto um bonsai. Como ele, fui podado pela vida e pelo acaso. Minha vida não é pequena, mas como todo neurótico, vez que outra sou levado a olhar o que me falta e não o que tenho.

A questão não é tão simples, há algo a mais. Claro que somos marcados e sofremos pela vida e pelas experiências que tivemos, mas isso está longe de ser o mapa completo das nossas dores. Também somos afetados pelas vidas que não vivemos. Não vidas de sonho, mas dos pássaros que deixamos voar enquanto segurávamos outro.

Vale para tudo: amantes que a vida desencontrou e que passam a vida a sonhar sobre como teria sido se continuassem; aquela profissão que sentíamos nossa, mas trocamos por uma mais viável; filhos que deixamos de ter por não ser a hora, e a hora nunca veio; viagens que se apresentaram e não priorizamos por não ter o tino de como seriam importantes; mudança de cidade que nos arrancou de amizades substanciais; a morte de um parente amado que seria vital para nosso crescimento. Creio que o leitor pegou a ideia e pode facilmente terminar de encher a página com esquinas da vida em que tivemos de escolher, ou o destino nos impôs, e algo muito importante ficou para trás.

Dessa forma, somos todos bonsais, podados de outras vidas que poderiam ter acontecido. Nas palavras do escritor americano Jonathan Safran Foer: “Às vezes posso sentir meus ossos apertados pelo peso de todas as vidas que não estou vivendo”.

A psicanálise dá a verdadeira importância para esses lutos, para esse futuro atrofiado que às vezes nos espinha. Talvez o leitor diga que isso é perda de tempo da verdadeira vida. Já não bastam as encrencas que temos, como ainda ir se ocupar de quimeras? Eu tendo a concordar com essa crítica. O problema é que talvez os venusianos atuem dessa forma objetiva, os humanos não, os humanos somos dados a nos lamentar com essas fantasias. Tente nascer em outra galáxia na próxima encarnação.

Não há saída para essa equação. Nossa vida é tecida em paralelo com o fantasma do não vivido, e ele é parte essencial de nós. Resta conhecer bem as sombras do que não fomos, para não tropeçar nelas e cair no buraco da frustração. A sabedoria é admitir-se parcial e apreciar a beleza dos bonsais.

Jornal Zero Hora, 10/05/2022 – MÁRIO CORSO

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