Pequena flor

Tu eras também uma pequena folha

que tremia no meu peito.

O vento da vida pôs-te ali.

A princípio não te vi: não soube

que ias comigo,

até que as tuas raízes

atravessaram o meu peito,

se uniram aos fios do meu sangue,

falaram pela minha boca,

floresceram comigo.

Pablo Neruda

Dormi contigo


Dormi contigo toda a noite 
junto ao mar, na ilha. 
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono, 
entre o fogo e a água.

Os nossos sonos uniram-se 
talvez muito tarde 
no alto ou no fundo, 
em cima como ramos que um mesmo vento agita, 
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

O teu sono separou-se 
talvez do meu 
e andava à minha procura 
pelo mar escuro 
como dantes, 
quando ainda não existias, 
quando sem te avistar 
naveguei a teu lado 
e os teus olhos buscavam 
o que agora 
— pão, vinho, amor e cólera — 
te dou às mãos cheias, 
porque tu és a taça 
que esperava os dons da minha vida.

Dormi contigo 
toda a noite enquanto 
a terra escura gira 
com os vivos e os mortos, 
e ao acordar de repente 
no meio da sombra 
o meu braço cingia a tua cintura. 
Nem a noite nem o sono 
puderam separar-nos.

Dormi contigo 
e, ao acordar, tua boca, 
saída do teu sono, 
trouxe-me o sabor da terra, 
da água do mar, das algas, 
do âmago da tua vida, 
e recebi teu beijo, 
molhado pela aurora, 
como se me viesse 
do mar que nos cerca.

Pablo Neruda

Dois

Dois…
Apenas dois.
Dois seres…
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente…
…Sempre…
…A se olharem…
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito…”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda