Meu amor

Meu amor

no teu peito de coragem

feito de pedras e cardos

há um país de viagem

e vinhos de cada cor

verdes maduros bastardos.

Há uma pedra de cal

em cada olhar que respira

há uma dor que já dura

desde que dura a mentira

há um muro levantado

numa seara madura.

Verde mar

verde limão

são os teus olhos de medo

o vento é este segredo

que escreve em cada manhã

o nome dela na erva

numa folha numa pedra

nos bagos de uma romã.

Acendo-te uma fogueira

nas tuas mãos acordadas

dou-te flores de laranjeira

dou-te ruas dou-te estradas

dou-te palavras secretas

dou-te coragem e setas

dou-te os meus dedos crispados

ponho cravos amarelos

à volta dos teus cabelos

dou-te o meu sangue vermelho

e o meu canto proibido

Dou-te o meu nome

raíz

há muito tempo arrancada

dou-te esta calma guardada

nos homens do meu país

dou-te a fome

do meu canto

dou-te os meus braços em cruz

e as mãos feitas num crivo

dou-te os meus pulsos abertos

mas é por outra que vivo.

Joaquim Pessoa, Poemas da Resistência (1968/1971)

Digo-te

Dia 347. (excerto)
*
E se o amor é como o oxigénio,
todos precisamos de amor. Vou, então,
respirar profundamente como quem faz música,
seja no coração ou no velho quintal
da tia-avó do Gedeão, Maria das Dores. Olha!,
as estrelinhas… Olha!, as estrelinhas… E tu olhas,
quando “posso escrever os versos mais tristes
esta noite”. Parecem diamantes a brilhar
nas mãos de um velho. Apaixonante, é perdoar,
amar-te duas vezes. Digo-te que és uma
tentação escaldante. Digo-te que forever
é uma alteração constante. Digo que
não haverá nunca nada mais brilhante
que um verso lapidado do futuro. Repara
como agora está escuro. Como está escuro
nos meus versos. Não há lua que ilumine
um muro, um telhado, uma canção. Mesmo
esta canção, estes versos que nos olham
com os grandes olhos azuis de Elsa e Aragon.
Vê como é bom que tudo cante assim,
dentro de ti, dentro de mim, também
fora de nós.
*
Joaquim Pessoa

in
ANO COMUM, 2.ª ed.

Bom dia, meu amor!

BOM DIA, MEU AMOR! -Joaquim Pessoa

Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.
E sobre a tua pele que a minha adora,
navega o meu desejo, esse navio
que sempre parte e nunca vai embora.
E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês, ou uma hora,
não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.
E calam-se as palavras, uma a uma,
feitas de sal, saliva, dor e espuma,
com a exacta dosagem da alegria.
Bom dia, meu amor! O teu sorriso
é tudo o que me falta, o que eu preciso
para acender a luz de cada dia.