Sabe-me a boca a nada

Sabe-me a boca a nada.

Sabe-me a boca a sombra.

Bebi a madrugada porque ela me deslumbra.

Matei a minha sede.

Esqueci a minha fome.

Soletrei as sílabas molhadas do teu nome.

E os pássaros que adejavam a luz do teu sorriso eram mais, muito mais do que é preciso para aninhar na minha carne a tua história, rainha das perguntas, princesa da memória.

Um dia hei-de servir-te palavras divertidas e colherei de um campo verde margaridas.

Beijarei tuas mãos, teus peitos, tuas ancas que cobrirei depois com essas flores brancas.

Farei muito amor contigo até de madrugada, até que a boca saiba a sombra e saiba a nada.

E tudo há-de depois recomeçar do zero.

Beberei de novo a madrugada em desespero, mas antes, gravarei, num dia como este, o meu e o teu nome na casca de um cipreste para que fique nesse tronco assinalado que o futuro tem presente e tem passado.

E então, minha rainha, princesa, meu amor, já podemos ir desta pra melhor.

Joaquim Pessoa

Dia 171

D I A     1 7 1 

Ofício de inocência sob os sabres do sol e o ferimento dos frutos.

Razão pura, como a de quem se esqueceu do nome das ruas azuis de uma canção, melodia antiga sobre o poema tão jovem como uma pomba adolescente.

Amo-te porque não poderia deixar de ser assim, e por isso vivo como se emti endireitasse paisagens dependuradas de tudo quanto sou.

No verão que te acende o corpo, apenas uma rosa se ergue sobre as dunas, recortada no azul, alimentando-se de pedacinhos de vento, definitivamente silenciosa na sua forma rubra de gritar.

O brilho dos meus nervos continua a cintilar quando desço as minhas mãos sobre as tuas ancas, ou as ancoro firmemente no teu peito durante cada tempestade de beijos.

As palavras, soltas como as ilhas de um arquipélago, entrecortam-te a respiração ofegante, e dão abrigo ao desejo de me transformar entre os teus braços, voltar a ser peixe aos olhos da paisagem, pescador de pérolas na tua boca, mergulhador na inebriante profundidade das grutas mais escuras do que em ti respira.

E tudo o que em mim é ainda criança, joga e brinca nos teus músculos beijados por uma luz tranquila que não será abandono nunca mais, antes festa solar, eclipse total de duas bocas que se vão fundindo até se tornarem sangue, serenidade e música.

E essa dulcíssima luz que nos acende a carne sob a pele, não quer senão iluminar cada um dos nossos dias, agora inspirados pelas mais transfiguradas noites de amor

Joaquim Pessoa 

in ANO COMUM – pág. 186

Viver é…

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, in ‘Ano Comum’