Vou-me Embora de Mim

Vou-me Embora de Mim (Joaquim Pessoa)

Tenho todas as contradições de um homem livre
e apenas vivo amarrado à minha liberdade. Rejeito o sonho
e quando durmo, durmo. Sou eterno em cada segundo.
É evidente que não tenho de procurar o que é evidente.
Quem luta pela liberdade luta pela vida e eu
não me canso de lutar, de procurar o cristal profundo,
o infatigável cristal que há milhões de anos
não era mais do que um pedaço de chuva.
Constelações de ideias, violentíssimos enxames
de sílabas, de palavras, têm-se deslocado num universo
finito, este cosmos de província que é a minha vida.
E aqui, de sete em sete dias posso contar um sábado,
dispondo de meses previsivelmente iguais na sua gestação,
sei como eles começam e acabam, como
recomeçam e voltam a acabar, só não consigo
lembrar-me do meu nascimento
e da minha morte não guardarei memória.

Sou um homem livre de contradições, isto é,
sou um homem livre, de contradições. E confesso-o
como defesa antecipada à justa acusação. O escritor
é um homem de dicções e de contra-dicções, de escritas
e de contra-escritas, aquele que diz e contra-diz,
que escreve contra si a seu favor. O escritor
é uma espécie de silêncio cheio de gritos mas também
uma espécie de grito almofadado com silêncios.
O escritor é alguém que já morreu setenta vezes.
Que já teve para si setenta vidas. Setenta oportunidades
que aproveitou para escrever sempre as mesmas coisas.
E não conseguirá escrever nada realmente diferente
nem que viva e morra por mais setenta vezes.
É amarrado a esta condição que o escritor é livre.
É amarrado à liberdade que o escritor está preso.
Ninguém poderá fazer de um escritor alguém feliz.
Na vida inquieta do escritor há um homem 
que tem medo de sonhar. Um homem cuja
coerência está na luta que tem consigo mesmo.
Porque, para o escritor, os outros que se lixem.
Porque, para o escritor, os outros são indispensáveis.

Última carta ao teu corpo

Última carta ao teu corpo
( Joaquim Pessoa)


Acorda-me. Acordar-me será a última, a mais terrível das
paixões. Mulher amada, sublime deusa exigente, magnífica
e destruidora, acorda-me.
Eis que a madrugada se povoa de angústias e de pássaros,
os minutos se enchem com meus dedos sem teus dedos.
Olhar virgem de esmeraldas, poço de náufragos e de gritos,
com teus lábios de ausência beija-me, acorda-me, magoa–me. 
Esta é a noite, são estes os mais ávidos momentos.
Acorda-me. Feres-me com o teu silêncio, a tua mágoa 
insulta-me. Coração entre corações perdido, lume das 
acácias e das ágatas.
Acorda-me sorrindo, na minha fronte agonizam os deuses,
em meu sexo cresce um desejo súbito de mil florestas por
nascer. Vem.
Nos meus braços ardem fogueiras com milhões de séculos
e estremece-os essa longa ternura que jamais alguém herdou 
do feno, das uvas e do vento.
Oh, acorda-me. Que farei dormindo nesta noite breve?
Que buscarão sem ti, pálidos, os meus olhos frágeis? És
virgem, és virgem como uma amendoeira sangrenta, e eu 
tenho apenas o que procuro em ti, nos teus ramos de ar,
no teu porte florido. 
Acorda-me. Protege-me. Eu sou fraco e vacilante como os
vagabundos, e às vezes duro e feroz como a raiva dos 
incêndios e das guerras. Por isso, acorda-me. Ama-me. 
Protege-me. E que nada eu busque sem te buscar, que nada
mais alcance sem poder tocar-te, que nada eu possa ver
sem contemplar teus seios, teus ombros, teus cabelos. 
Cobrir-te-ei de origens e de cânticos, ajoelharei rosas, 
inundarei meu corpo de música e abandono e, sem inveja 
nem ódio, poisarei de leve a minha boca no teu ventre para 
que nada me limite, e uma liberdade fria e densa como um 
bosque divino reclame as nossas mãos cansadas dos abismos
e tão cheias apenas de silêncio e desencontros.
Acorda-me. Acorda-me e destrói-me. Esta será a última,
a mais terrível das paixões.


Poema inédito do disco “Arte do Coração”, gravado pelo
autor (Joaquim Pessoa) nos Estúdios T. S. F., para a Editora
Sassetti, em 1982.

DIZER CATORZE VERSOS

DIZER CATORZE VERSOS 
Joaquim Pessoa

Dizer catorze versos ao acaso,
falar de ti, de mim, falar de nós.
De nós, que nos cantamos num abraço
e que nos abraçamos com a voz.

Que vou dizer de ti, eu, que te amo
e isso é ter-te em mim, como se eu fosse
cada um dos momentos em que chamo
por Deus que me criou quando te trouxe.

Ó meu amor, que vou dizer-te agora
quando nada me chega para o canto
que de ti se alimenta e me devora?

Cantar-te, estando lúcido, é estar louco.
Não sei que mais dizer-te nesta hora