Dia 129, sobre o artesão

Dia 129. (excerto)

*

Sou um artesão que trabalha na oficina das palavras.
Voo com as palavras. Vou com as palavras.
Subi as ladeiras do tempo carregado de sílabas e de
esperanças.
Voar foi escrever, habitar a música, tornar humana a
fantasia do anjo, sabendo que nem hábitos nem ges-
tos emprestaram serenidade à escrita.
O mundo não é um lugar para a verdade, nem é uma
casa vazia. É como a velhice que nos vai traindo, dan-
do-nos sabedoria, retirando do corpo para dar ao es-
pírito.
Têm-me valido, de todo, as palavras. As carregadas
de amor e as outras. Desarmadas. Simples. Dignas.
E também as que são fogo, tempestade ou raíz. Vou
fazendo danos a mim mesmo. Feridas e negações.
Mas prossigo, escrevendo. Com amor.

*

Joaquim Pessoa in
ANO COMUM, 2.ª ed.
Editora Edições Esgotadas.

O amor

O amor é um poema. Dói e canta cá dentro. Tem a filosofia
das árvores, a lição do mar, os ensinamentos que as aves re-
colhem quando migram para lá dos desertos, de onde hão-
-de regressar mais sábias e seguras.
O amor é uma causa. Uma luta excessiva com a divindade
dos dias e a sua fogueira obscura. Mas também contra o mis-
tério de si mesmo, uma paz que nos dá o cansaço e a loucu-
ra infeliz da felicidade, esse primitivo terror dos sinos que to-
cam como um aviso aos densos nevoeiros súbitos do mar.
O amor é uma casa. Erguida com os beijos, com os versos
da noite e o gemido das estrelas. Casa cujas paredes vestem
o nosso júbilo, a nossa intuição, a nossa vontade, sobretudo
o nosso instinto e a nossa sabedoria. Onde se acende e bri-
lha a luz suplicante da pele comprometida dos amantes.
O amor é um gigantesco pequeno mistério, uma estranha ge-
nerosidade que faz com que, quanto mais damos, com mais
ficamos para dar.
Só o amor é o elixir da juventude. Não esse que sempre se
procurou nas indecifráveis fórmulas dos antigos livros de ma-
gia e de alquimia, mas aquele que está tão perto de nós que,
por vezes o pisamos sem reparar.

Joaquim Pessoa

O teu sorriso

O TEU SORRISO

*

Ali estavas, admirável e frágil como um raminho azul de flores do
campo. A tua sombra era a minha sombra, enquanto eu olhava
perturbado, como um artista que tivesse identificado pela primeira
vez a primavera.

As palavras estavam todas alinhadas na minha boca. Os beijos
empurravam-se para chegar primeiro a ti.

Por um instante foste minha aluna e eu teu professor. As nossas
pupilas gaguejavam aflitas até se encontrarem já perto do infinito.

Foi difícil conversar, e foi tão fácil conversar, porque não era co-
mum o que tínhamos em comum, e regressei com vontade de es-
crever um poema que dissesse de ti o que eu não sabia ainda co-
mo dizer.

E não consigo esquecer a maneira exacta como sorriste. Agora,
para beijar de novo o teu sorriso, eu sacrificaria os dias que me
restam.

Joaquim Pessoa