Digo-te

Dia 347. (excerto)
*
E se o amor é como o oxigénio,
todos precisamos de amor. Vou, então,
respirar profundamente como quem faz música,
seja no coração ou no velho quintal
da tia-avó do Gedeão, Maria das Dores. Olha!,
as estrelinhas… Olha!, as estrelinhas… E tu olhas,
quando “posso escrever os versos mais tristes
esta noite”. Parecem diamantes a brilhar
nas mãos de um velho. Apaixonante, é perdoar,
amar-te duas vezes. Digo-te que és uma
tentação escaldante. Digo-te que forever
é uma alteração constante. Digo que
não haverá nunca nada mais brilhante
que um verso lapidado do futuro. Repara
como agora está escuro. Como está escuro
nos meus versos. Não há lua que ilumine
um muro, um telhado, uma canção. Mesmo
esta canção, estes versos que nos olham
com os grandes olhos azuis de Elsa e Aragon.
Vê como é bom que tudo cante assim,
dentro de ti, dentro de mim, também
fora de nós.
*
Joaquim Pessoa

in
ANO COMUM, 2.ª ed.

Bom dia, meu amor!

BOM DIA, MEU AMOR! -Joaquim Pessoa

Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.
E sobre a tua pele que a minha adora,
navega o meu desejo, esse navio
que sempre parte e nunca vai embora.
E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês, ou uma hora,
não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.
E calam-se as palavras, uma a uma,
feitas de sal, saliva, dor e espuma,
com a exacta dosagem da alegria.
Bom dia, meu amor! O teu sorriso
é tudo o que me falta, o que eu preciso
para acender a luz de cada dia.

A força da rosa

Nada tem a força de uma rosa. Uma fresca rosa levantando o rosto contra as veias da terra, contra o escuro outono.
Uma rosa de força, de sangue, de coragem. Nada tem este olhar das casas debruçadas no sangue, respirando a liberdade que nasce à beira deste campo, no corpo aberto, na inteligência dos insetos, no grito branco das árvores, construída com a pele das cidades e do medo, batendo nos pulsos quentes da coragem.
Nada me basta, um corpo, um livro, se a nudez de uma rosa preenche a eternidade. (…)

Joaquim Pessoa, em “A Morte Absoluta”