As sem-razões do amor

AS SEM-RAZÕES DO AMOR

Eu te amo porque te amo,
Não precisas ser amante,
e nem sempre sabes sê-lo.
Eu te amo porque te amo.
Amor é estado de graça
e com amor não se paga.
Amor é dado de graça,
é semeado no vento,
na cachoeira, no eclipse.
Amor foge a dicionários
e a regulamentos vários.
Eu te amo porque não amo
bastante ou demais a mim.
Porque amor não se troca,
não se conjuga nem se ama.
Porque amor é amor a nada,
feliz e forte em si mesmo.
Amor é primo da morte,
e da morte vencedor,
por mais que o matem (e matam)
a cada instante de amor.

Carlos Drummond de Andrade

Sobre verdades.

Sobre verdades.

´A porta da verdade estava aberta,
mas só deixava passar
meia pessoa de cada vez.

Assim não era possível atingir toda a verdade,
porque a meia pessoa que entrava
só trazia o perfil de meia verdade.

E sua segunda metade
voltava igualmente com meio perfil.
E os dois meios perfis não coincidiam.

Arrebentaram a porta. Derrubaram a porta.
Chegaram a um lugar luminoso
onde a verdade esplendia seus fogos.
Era dividida em duas metades,
diferentes uma da outra.

Chegou-se a discutir qual a metade mais bela.
As duas eram totalmente belas.
Mas carecia optar. Cada um optou conforme
seu capricho, sua ilusão, sua miopia´.

~Carlos Drummond de Andrade. “Poesia completa”. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2002

Furto de uma flor

O Furto de uma flor é um conto de Carlos Drummond de Andrade, que transcrevo abaixo e divago na sequencia:

 

Furto de flor

Furtei uma flor daquele jardim. O porteiro do edifício cochilava, e eu furtei a flor.

Trouxe-a para casa e coloquei-a no copo com água. Logo senti que ela não estava feliz. O copo destina-se a beber, e flor não é para ser bebida

Passei-a para o vaso, e notei que ela me agradecia, revelando melhor sua delicada composição. Quantas novidades há numa flor, se a contemplarmos bem.

Sendo autor do furto, eu assumira a obrigação de conservá-la. Renovei a água do vaso, mas a flor empalidecia. Temi por sua vida. Não adiantava restituí-la no jardim. Nem apelar para o médico de flores. Eu a furtara, eu a via morrer.

Já murcha, e com a cor particular da morte, peguei-a docemente e fui depositá-la no jardim onde desabrochara. O porteiro estava atento e repreendeu-me.

– Que ideia a sua, vir jogar lixo de sua casa neste jardim!

Carlos Drummond de Andrade. Contos plausíveis. Rio de Janeiro, José Olympio, 1985. p. 80.

 

Como percebemos neste conto o que acontece na nossa vida.

Pessoas que se apropriam das outras, furtando suas personalidades, suas almas, suas vidas de forma sufocante…

Pessoas que impõe as suas ideias em nome de Deus, em nome de religiões, em nome de verdades absolutas que somente podem ser impostas, jamais pensadas, criticadas ou opostas.

Pessoas que querem ser mais porque tem mais e esquecem que o ser e o ter são completamente diferentes.

Pessoas… que furtam, em alguns casos roubam, noutros – quiçá pior ainda – se apropriam indebitamente ou cometem estelionato nas crenças e verdades alheias.

E, para que fique na reflexão, estas mesmas pessoas estão ao nosso lado, querendo nos ditar suas verdades a todo instante. Estão travestidas de nomes de pais, tutores, professores, colegas, amores.

Usam estas carapaças para iludir.

Como disse o Engenheiros do Hawai: Ouça o que eu digo, não ouça ninguém.

Tire suas próprias conclusões, viva a sua própria existência. Não furte as flores do jardim alheio.

O seu jardim, desde que bem cuidado, será muito mais florido do que aquele que aparece na vidraça alheia.

#PenseNisto

 

Beijo no coração das gurias e abraço nos xirús!

Gustavo Rocha

Blog do Gustavo Rocha – PensarFazBem

gustavo@gestao.adv.br  |  (51) 8163.3333  |www.blogdogustavorocha.com.br