Um conto de Khalil Gibran

Eu estava andando sobre os jardins de um asilo de loucos quando eu conheci um jovem lendo um livro de filosofia.

Por suas boas maneiras e da saúde ele retratou, ele não combinam muito bem com os pacientes de lá. Sentei-me ao lado dele e perguntou: “O que você está fazendo aqui?” Ele olhou para mim surpreso. Mas, como ele viu que eu não era um dos médicos, ele respondeu: “Isso é muito simples. Meu pai, um brilhante advogado, queria que eu fosse como ele.

“Meu tio, proprietário de um grande entreposto comercial, queria me a seguir o seu exemplo. Minha mãe queria que eu me tornasse a imagem de seu amado pai. Minha irmã sempre citado o marido como o exemplo de um homem bem sucedido. Meu irmão tentou me treinar para se tornar um excelente atleta como ele.

E o mesmo aconteceu com os meus professores na escola, o professor de piano, o tutor Inglês: todos eles estavam convencidos e resoluto; eles foram os melhores exemplos a serem seguidos. Ninguém olhou para mim como se alguém deve olhar para um homem mas como se olhou no espelho .

Dessa forma, eu decidi me admitir neste asilo. Aqui, pelo menos, eu posso ser eu mesmo .

Do Primeiro Beijo

 

É o primeiro gole de néctar da Vida, numa taça ofertada pela divindade. É a linha divisória entre a dúvida que engana o espírito e entristece o coração, e a certeza que inunda de alegria nosso íntimo. É o começo da canção da Vida e o primeiro ato do drama do Homem Ideal. É o vínculo que une a obscuridade do passado com a luminosidade do futuro; é a ponte entre o silêncio dos sentimentos e a sua própria melodia. É uma palavra pronunciada por quatro lábios, proclamando o coração um trono, o Amor um rei e a fidelidade uma coroa. É o toque leviano dos dedos delicados da brisa nos lábios da rosa — pronunciando um longo suspiro de alívio e um suave gemido.

É o começo daquela vibração mágica que transporta os amantes do mundo das coisas e dos seres para o mundo dos sonhos e das revelações.

É a união de duas flores perfumadas; e a mistura de suas fragrâncias, para a criação de uma terceira alma.

Assim como o primeiro olhar é uma semente lançada pela divindade no campo do coração humano, assim o primeiro beijo é a primeira flor nascida na ponta dos ramos da Árvore da Vida.

(Khalil Gibran)

Canções

CANÇÕES

KHALIL GIBRAN

A CANÇÃO DO ENAMORADO

Nas profundezas de minha alma, há uma canção que não aceita as palavras por vestidos, uma canção que habita o mais íntimo do meu ser e não quer espalhar-se em tinta no papel. Envolve meu coração como um invólucro transparente, e não quer passar por minha língua como um floco de neve.

Como a exaltar, se receio para ela até as vibrações do éter? E para quem a cantar, se ela se habituou a viver na morada de minha alma, e se temo para ela a rudeza dos ouvidos?

É a canção do amor, ó gente! Onde está o lsaac que a entoará e o Davi que a cantará? Que mortal pode repetir as canções dos deuses?

A CANÇÃO DA ONDA

Eu e a praia somos dois enamorados que a paixão junta e os ventos separam. Venho de além do horizonte azul para misturar a prata da minha espuma com o ouro das suas areias, e para esfriar o calor de seu coração com minha saliva.

Na aurora, confesso minha paixão à minha amada, e ela me aperta contra seu coração; e à tarde, canto minha saudade, e ela me cobre de beijos.

Sou impaciente e agitado; e minha amada é paciente e mansa.

Sobe a preamar, e consigo abraçar minha amada; desce a baixa-mar, e só consigo jogar-me aos seus pés.

Quantas vezes dancei para as sereias quando subiam das profundezas e se sentavam nas pedras para contemplar as estrelas! E quantas vezes ouvi um enamorado exalar as dores de sua paixão, e acompanhei suas queixas e lamentos!

E quantos corpos salvei dos abismos, devolvendo-os ao mundo dos vivos. E quantas pérolas roubei ao fundo do mar e as trouxe de presentes às belas!

Na quietude da noite, quando todas as criaturas se entregam ao sono, continuo desperto, cantando e gemendo alternadamente. As vigílias me enfraqueceram. Mas que fazer? Amo!

A CANÇÃO DA BELEZA

Sou o guia do amor, sou o vinho da alma, sou o alimento do coração, sou uma rosa que abre as pétalas na juventude do dia; e a mulher me recolhe, me beija e me coloca no seu peito.

Sou a morada da felicidade, sou a fonte da alegria, sou o começo do repouso, sou um sorriso suave nos lábios de uma beldade. Ao ver-me, o jovem esquece suas fadigas; e a sua vida torna-se um palco para sonhos deliciosos.

Sou a inspiração dos poetas, sou o guia dos artistas, sou o mestre dos músicos.

Sou uma luz nos olhos da criança: a mãe a vê e cai de joelhos a bendizer a Deus.

Apareci a Adão no corpo de Eva e escravizei-o; e apareci a Salomão no corpo de suas amadas, e tornei-o sábio e poeta.

Sorri a Helena, e ela destruiu Tr6ia. Coroei Cle6patra, e a alegria encheu o Vale do Nilo.

Sou como o Tempo: construo hoje e destruo amanhã. Sou como Deus: distribuo a vida e a morte.

Sou mais delicada que o sorriso da violeta e mais fogosa que o temporal.

Sou uma realidade! Eis o que há de melhor em mim.

A CANÇÃO DA FELICIDADE

O homem é meu amado, e eu sou a sua amada. Sinto falta dele, e ele me adora. Mas, ai, tenho uma rival que disputa seu amor e me atormenta. Chama-se Matéria. Segue-nos aonde quer que vamos e nos desune e separa.

Procuro meu amado sob as árvores das campinas e à margem dos lagos, e não o encontro, porque a Matéria o seduziu e o levou à cidade, à vida social e ao vício e à desventura.

Procuro-o nos institutos do saber e nos templos da sabedoria; mas não o encontro, porque a Matéria, aquela que veste o pó da terra, o conduziu aos antros do egoísmo onde foi açambarcado.

Procuro-o nos campos do contentamento, e não o encontro, porque minha rival o mantém preso nas grutas da ganância e da gula.

Chamo-o de madrugada quando o Oriente sorri, mas ele não me ouve, porque o sono do egoísmo pesa nas suas pálpebras.

Brinco com ele à noite, quando a quietude se espalha e as flores dormem, mas ele me despreza, porque suas preocupações com o dia seguinte sobrecarregam sua mente.

Meu amado me ama. Procura-me nos seus afazeres, mas ele só me encontrará nos afazeres de Deus. Anseia por possuir-me no palácio da glória, que ele edificou sobre os crânios dos humildes, e entre seus cofres cheios de prata e de ouro. E eu só aceito unir-me a ele na casa da simplicidade, que os deuses construíram à margem do rio dos sentimentos.

Meu amado aprendeu de minha rival, a Matéria, os gritos e o barulho; mas eu lhe ensinarei a verter uma lágrima de compaixão dos olhos de sua alma, e a exalar um suspiro de contentamento.

Meu amado me pertence, e eu lhe pertenço.