Poema em linha reta

Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.


E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe – todos eles príncipes – na vida…


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!
Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,


Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?


Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos – mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,
Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.

Fernando Pessoa
(Álvaro de Campos)

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Um claro e obscuro caminho

Concordo com o poeta Joaquim Pessoa: A poesia pulsa, vibra e quando vem, muda o mundo, seja o nosso, seja de quem nos cerca!

UM CLARO E OBSCURO CAMINHO

*

“El canto de todos que es mi propio canto”.

(Violeta Parra)

Não posso preparar-me para o acto de escrever.
E, se pudesse, não saberia sequer que direcção
seguir. Estou mais perto que nunca de mim, sem
saber de mim. E escrevo. Torno-me parte da escrita
e passo a pertencer à incomensurável tribo das palavras,
ao país da fala. Vou pela linguagem como descendo
um rio, e então tudo acontece sem que eu saiba o que
vai acontecer. Escrever poesia é uma surpresa, não
um hábito. Sou tomado de assalto pelos versos,
mas sou eu que acendo neles a luz das sílabas para
comemorar, assim, o poema que ofereço intacto à
página, esse espaço agora iluminado na arquitectura
do livro. Mas só depois o leio. E só depois o sinto.
E sinto, então, que o canto não é meu É o canto
de todos, que é o meu próprio canto.

Joaquim Pessoa In QUE NOME DAR A ESTE LIVRO?, a publicar
pela Editora Edições Esgotadas.

Beijo no coração das gurias e abraço nos xirús!


Gustavo Rocha
Blog do Gustavo Rocha – PensarFazBem
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