Clara

Clara

Casimiro de Abreu


Não sabes, Clara, que pena
eu teria se — morena
tu fosses em vez de clara!
Talvez… quem sabe… não digo…
mas refletindo comigo
talvez nem tanto te amara!

A tua cor é mimosa,
brilha mais da face a rosa
tem mais graça a boca breve.
O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

A morena é predileta,
mas a clara é do poeta:
assim se pintam arcanjos.
Qualquer, encantos encerra,
mas a morena é da terra
enquanto a clara é dos anjos!

Mulher morena é ardente:
prende o amante demente
nos fios do seu cabelo;
— A clara é sempre mais fria,
mas dá-me licença um dia
que eu vou arder no teu gelo!

A cor morena é bonita,
mas nada, nada te imita
nem mesmo sequer de leve.
— O teu sorriso é delírio…
És alva da cor do lírio,
és clara da cor da neve!

Pequeno Breviário Shawiano

Pequeno Breviário Shawiano

Bernard Shaw


Não há amor mais sincero que o da comida.

Cabe à mulher casar-se o mais cedo possível e ao homem ficar solteiro o  mais tempo que pode.

A minha especialidade é ter razão quando os outros não a têm.

Quando um tolo pratica um ato de que se envergonha, declara sempre que fez o seu dever.

Quem nunca esperou não pode desesperar nunca.

Uma vida inteira de felicidade? Ninguém agüentaria: seria o inferno na terra.

O pior crime para com os nossos semelhantes não é odiá-los, mas demonstrar-lhes indiferença: é a essência da desumanidade.

Há duas tragédias na vida: uma, a de não alcançarmos o que o nosso coração deseja; a outra, de alcançá-lo.

Os ingleses nunca hão de ser escravos: eles são livres de fazer tudo o que o Governo e a opinião pública lhes permitem fazer.

(Jogo de xadrez) É um expediente tolo para fazer com que pessoas preguiçosas acreditem que estão fazendo algo muito inteligente, quando estão apenas perdendo tempo.

O lar é a prisão da moça e o hospício da mulher.

O martírio… é a única maneira de ganhar fama sem ter competência.

Quem deseja uma vida feliz com uma mulher bonita assemelha-se a quem quisesse saborear o gosto do vinho tendo a boca sempre cheia dele.

Não faças aos outros o que queres que te façam; os gostos deles podem ser diferentes dos teus.

Neste mundo sempre há perigo para aqueles que o temem.

Há apenas uma única religião, embora dela exista uma centena de versões.

Nunca espero nada de um soldado que pensa.

Sou abstêmio apenas de cerveja, não de champanha.

Não gosto de sentir-me em casa quando estou no estrangeiro.

Conselho Médico

Conselho Médico
(Como devemos tomar nossos remédios)

Barão de Itararé
Quando estamos doentes, afinal não temos outro remédio senão tomar remédio.

O remédio, aliás, sempre faz bem. Ou faz bem ao doente que o toma com muita fé; ou ao droguista que o fabrica com muito carinho; ou ao comerciante que o vende com um pequeno lucro de 300 por cento.

Mas apesar do bem que fazem, devemos convir que há remédios verdadeiramente repugnantes, que provocam engulhos e violentas reações de repulsa do estômago.

Como devemos tomar esses remédios repugnantes? Aí está o problema que procuraremos resolver para orientar os nossos dignos e anêmicos leitores.

O melhor meio de vencer as náuseas, quando temos que ingerir um remédio repelente, consiste em recorrer à lógica dos rodeios, adotando os métodos indiretos, até chegar à auto-sugestão, transformando assim o remédio repugnante numa coisa que seja agradável ao paladar. Numa palavra, devemos tomar o remédio com cerveja, por exemplo.

Como devemos proceder para chegarmos a esse magnífico resultado?

É indispensável comprar, antes do remédio, uma garrafa de cerveja. Depois, é necessário bebê-la devagar, saboreando-a, para sentir-lhe bem o gosto. Liquidada a primeira garrafa, pedimos outra cerveja. Esta   vamos tomá-la de outra forma, também devagar, mas com a idéia posta no remédio, cuja lembrança naturalmente nos provocará asco. Para voltarmos ao normal, encomendamos uma terceira garrafa, com a qual, lembrando-nos sempre do remédio, iremos dominando e vencendo a repugnância. Na altura da quinta ou undécima garrafa, nós já estaremos convencidos de que o gosto do remédio deve ser muito semelhante ao da cerveja e, assim, já poderíamos beber calmamente o remédio como cerveja. Mas, como não temos o remédio no momento e já não temos muita força nas pernas para ir à farmácia, então continuamos a beber a infusão de lúpulo e cevada, até chegarmos a esta notável conclusão: se é possível chegar a se tomar um remédio tão repugnante como cerveja, muito mais lógico será que passemos a tomar cerveja como remédio, porque a ordem dos fatores não altera o produto, quando está convenientemente engarrafado.
Texto extraído do livro “Máximas e Mínimas do Barão de Itararé“, Editora Record – Rio de Janeiro, 1986, pág. 33, uma coletânea organizada por Afonso Félix de Sousa.