A Nossa Vitória de cada Dia

Olhe para todos ao seu redor e veja o que temos feito de nós e a isso considerado vitória nossa de cada dia. Não temos amado, acima de todas as coisas. Não temos aceite o que não se entende porque não queremos passar por tolos. Temos amontoado coisas e seguranças por não nos termos um ao outro. Não temos nenhuma alegria que não tenha sido catalogada. Temos construído catedrais, e ficado do lado de fora pois as catedrais que nós mesmos construímos, tememos que sejam armadilhas. Não nos temos entregue a nós mesmos, pois isso seria o começo de uma vida larga e nós a tememos. 
Temos evitado cair de joelhos diante do primeiro de nós que por amor diga: tens medo. Temos organizado associações e clubes sorridentes onde se serve com ou sem soda. Temos procurado nos salvar mas sem usar a palavra salvação para não nos envergonharmos de ser inocentes. Não temos usado a palavra amor para não termos de reconhecer a sua contextura de ódio, de amor, de ciúme e de tantos outros contraditórios. Temos mantido em segredo a nossa morte para tornar a nossa vida possível. Muitos de nós fazem arte por não saber como é a outra coisa. Temos disfarçado com falso amor a nossa indiferença, sabendo que nossa indiferença é angústia disfarçada. Temos disfarçado com o pequeno medo o grande medo maior e por isso nunca falamos no que realmente importa. Falar no que realmente importa é considerado uma gaffe. 
Não temos adorado por termos a sensata mesquinhez de nos lembrarmos a tempo dos falsos deuses. Não temos sido puros e ingénuos para não rirmos de nós mesmos e para que no fim do dia possamos dizer «pelo menos não fui tolo» e assim não ficarmos perplexos antes de apagar a luz. Temos sorrido em público do que não sorriríamos quando ficássemos sozinhos. Temos chamado de fraqueza a nossa candura. Temo-nos temido um ao outro, acima de tudo. E a tudo isso consideramos a vitória nossa de cada dia. 

Clarice Lispector, in ‘Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres’

Como é Difícil Ser Natural

É curioso como é difícil ser natural. Como a gente está sempre pronta a vestir a casaca das ideias, sem a humildade de se mostrar em camisa, na intimidade simples e humana da estupidez ou mesmo da indiferença. Fiz agora um grande esforço para dizer coisas brilhantes da guerra futura, da harmonia dos povos, da próxima crise. E, afinal de contas, era em camisa que eu devia continuar quando a visita chegou. No fundo, não disse nada de novo, não fiquei mais do que sou, não mudei o curso da vida. Fui apenas ridículo. Se não aos olhos do interlocutor, que disse no fim que gostou muito de me ouvir, pelo menos aos meus, o que ainda é mais penoso e mais trágico. 

Miguel Torga, in “Diário (1947)”

Dia internacional da mulher, quero dizer, do respeito.

Na história, dia de relembrar as bravas mulheres que foram queimadas vivas por lutarem por seus MÍNIMOS DIREITOS.

Na atualidade, dia de lembrar/perceber as mulheres que lutam pelos seus DIREITOS, ou seja, por aquilo que representa algo seu e não algo dado, esmola ou benesse.

Seja por gostar de entender de história para evoluir no presente e projetar o futuro, seja por compreender nesta data muito mais que um dia de flores, bombons e presentes, faço uma paráfrase e um resumo sintético em sua dedicatória.

A paráfrase é do texto do livro O Caçador de Pipas, onde ele menciona sobre o ato de roubar, aonde tudo de errado que existe é roubo ou uma variante de roubo:

“Existe apenas um pecado, um só. E esse pecado é roubar. Qualquer outro é simplesmente a variação do roubo. Quando você mata um homem, está roubando uma vida, está roubando da esposa o direito de ter um marido, roubando dos filhos o direito de ter um pai. Quando você mente, está roubando de alguém o direito de saber a verdade. Quando você trapaceia, está roubando o direito à justiça. Entende? Não há ato mais infame que roubar.”

– O Caçador de Pipas.

E como resumo sintético, afirmo que tudo nesta data se resume a respeito.

Respeito quando uma mulher diz não. Ela não quer dizer talvez, pode ser, ou ela não sabe o que está perdendo, ou ela ainda não sabe o que é bom pra ela. ELA SABE. E o não apenas quer dizer que na opinião dela, não é melhor pra ela. Respeitar o não é tão básico quanto respeitar a opinião do próximo (e infelizmente ainda estamos distantes de ambas as realidades).

Respeito a igualdade salarial. Pagamos diferente porque as mulheres podem gerar filhos, seria isto? Seria esta a nossa resposta enquanto empresas para a continuidade da raça humana? O que literalmente vejo são mulheres muito, mas muito mais capacitadas sendo menosprezadas por conceitos antigos, tanto quanto por fogo em pessoas vivas para tentar silenciar seus direitos.

Respeito às suas escolhas. Se a mulher escolheu uma roupa diferente, não ter filhos, ter filhos, enfim, se ela escolheu, respeite. Podemos discordar, afinal, a unanimidade é burra, já disse Nelson Rodrigues.  Entretanto, discordar não é subjugar a sua vontade sobre a vontade do próximo. Aliás, respeitar significa aceitar que ideias divergentes podem conviver pacificamente, pois o certo não é a ideia A ou ideia B, mas o respeito que se tem pelas crenças e verdades de cada um, independente de gênero.

Quiçá esta data tão importante deve ser mais do que apenas o dia internacional da mulher, deve ser o dia internacional do respeito à mulher.

Respeito, enfim, a tudo que representa a individualidade da mulher, assim, como a do homem, assim como das infinitas escolhas de gẽnero da atualidade.

Respeito, simples, direto, objetivo e muito profundo.

Respeito. Respeite. Aceite.

A vida flui quando respeitamos e aceitamos todos na sua existência de forma coexistente.

Beijo no coração das gurias e abraço nos xirús!

Gustavo Rocha
Blog do Gustavo Rocha – PensarFazBem
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