A imensa alegria de servir

Toda natureza é um desejo de serviço.
Serve a nuvem, serve o vento, serve o sulco.
Onde houver uma árvore para plantar,
planta-a tu;
onde houver um erro para corrigir,
corrige-o tu;
onde houver uma tarefa que todos recusem,
aceita-a tu.

Sê quem tira
a pedra do caminho,
o ódio dos corações
e as dificuldades dos problemas.

Há a alegria de ser sincero e de ser justo;
há, porém, mais do que isso,
a imensa alegria de servir.

Como seria triste o mundo
se tudo já estivesse feito,
se não houvesse uma roseira para plantar,
uma iniciativa para lutar!

Não te seduzam as obras fáceis.
É belo fazer tudo
que os outros se recusam a executar.

Não cometas, porém, o erro
de pensar que só tem merecimento executar
as grandes obras;
há pequenos préstimos que são bons serviços:
enfeitar uma mesa.
arrumar uns livros.
pentear uma criança.

Aquele é quem critica,
este é quem destrói;
sê tu quem serve.

Servir não é próprio dos seres inferiores:
Deus, que nos dá fruto e luz,
serve.
Poderia chamar-se: o Servidor.
E tem os seus olhos fixos nas nossas mãos
e pergunta-nos todos os dias:
– Serviste hoje?

Gabriela Mistral, poetisa chilena (1889-1957)

Fonte: http://belostextos.aaldeia.net/alegria-servir/

Perguntas

Perguntas

Onde estavas tu quando fiz vinte anos
E tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
Nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
Para com elas fazer posters cinzeiros e emblemas?

Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
Mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
Ao mesmo tempo que viamos Música no Coração
Mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?

Por onde andavas que não viste os corações brancos
Retalhados na Coreia e no Vietname
Nem ouviste nenhuma das canções de Bob Dylon
Virando também as costas quando arrasaram Wiriammu
E enterraram vivas
Mulheres e crianças em nome
De uma pátria una e indivisível?

Que caminho escolheram os teus passos no momento em que
Foram enforcados os guerrilheiros negros da África do Sul
Ou Alende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
Pronunciou as últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
Às chacinas do Esquadrão da Morte?

Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
Que ninguém te encontrou em lugar algum.

Joaquim Pessoa

Quando chega a morte

Que sejamos como está reflexão: amor em cada instante na nossa vida, para que na passagem haja apenas saudade de todo amor que foi compartilhado!

Quando chega a morte

Ela é a indesejada. Ninguém que a convide. Sobretudo quando o amor preside as relações, a felicidade sorri e a vida é um constante recolher de bênçãos.

Milênios de Cristianismo com a lição da imortalidade testificada pelo Mestre dos mestres, ainda não nos penetrou a todos.

Por isso, toda vez que ela alcança um dos nossos amores, um amigo, um ídolo, um colega, lamentamos.

E continuamos a nos servir de expressões que se tornaram praxe para essas ocasiões: É com pesar que noticiamos a morte de…

Lamentamos a perda do seu ente querido.

Receba nossos pêsames.

A tristeza é a nota sonante. Por isso, algumas pessoas chamam a atenção pela sua postura ante a morte.

Recentemente, alguém influente de cidade do Interior do Estado morreu, depois de quase dois anos de luta contra a enfermidade cruel que o abraçou.

O que vimos foi uma movimentação maciça de instituições civis, religiosas, pessoas de todas as classes.

Flores e mais flores foram se acumulando, no local onde estava exposto o corpo para a visitação.

Uma música suave se derramava pelo ambiente, convidando os presentes ao silêncio respeitoso, à oração.

No momento de ser fechado o caixão para a condução ao túmulo, a esposa desejou falar.

Emocionada, mas firme, ergueu sua voz:

Amigos que aqui vieram prestar a última homenagem ao meu marido, recebam minha gratidão.

Agradeço as manifestações de solidariedade, os abraços, o carinho.

De alguns ouvi comentários de como deve ter sido duro o período da enfermidade do Marcelo.

De como deve ter custado a nós, os familiares, muito sofrimento os longos meses de cirurgias, quimioterapias e tudo que as acompanhou.

Saibam que esses dois últimos anos nos foram muito especiais. Não posso dizer que não houve dias de aflição, de angústia.

No entanto, desde o momento do primeiro e terrível diagnóstico, firmamos um pacto: ele, nossos filhos e eu.

O trato era de que, não importando o que acontecesse ou quando ocorresse a morte, o tempo que tivéssemos seria usufruído com estreitamento dos nossos laços afetivos.

Ficou estabelecido entre nós que a cada noite, antes do recolhimento ao leito, desejaríamos uns aos outros uma boa noite. Isso sempre entremeado de abraços e beijos.

E jamais iniciamos o dia sem igual procedimento.

Exercitamos o amor mais do que nunca.

Então, desejo que todos saibam que esses dois anos não foram pesados. Foram meses e meses de uma semeadura de amor.

Tudo para que, quando ele partisse, seguisse em paz.

E nós, os que o amamos, igualmente tranquilos, dele nos despedíssemos com um simples até logo.

As vibrações afetivas que trocamos nos manterão, saudosos, mas sem desespero, até o momento do reencontro.

Quando sua voz emudeceu, discretos soluços de emoção se escutaram, aqui e ali.

Uma aragem de paz soprou mansamente pela sala. A mensagem da certeza imortalista soprou de leve sobre todos.

Belo testemunho de quem, tendo colocado a mão no arado da fé, não se permitiu olhar para trás.

Pensemos nisso.

Redação do Momento Espírita.

Em 1º.5.2018.