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Amor dá

As pessoas amam bem mais a expectativa do amor possível, que o amor propriamente dito. Daí a intensidade dos impulsos bloqueados, os que estão impedidos de expansão e movimento na direção do objeto amado. Os “grandes amores” da literatura são grandes, não por serem amores, mas por serem impossíveis. 
Já os grandes amores da vida real só quem sente é que sabe. A impossibilidade de dimensionar um impulso afetivo carrega de energia a fantasia. E esta se encarrega de dar dimensão ao que o exercício da relação, talvez, tirasse. Na paixão impossível só estão as projeções do que idealizamos, pretendemos ou não conseguimos viver em nosso cotidiano. Daí ser fácil entender sua força, sua obsessiva presença na cabeça dos enamorados. 
É por isso, aliás, que só é musa quem é inatingível. Case-se com a sua musa e acordará com uma jararaca… Case-se com quem ama e será feliz. Quer se ver livre de uma paixão colossal? Vá viver com a pessoa objeto da paixão (observem, por favor, que não estou usando a palavra amor). Aliás, já está nos clássicos e, mesmo, antes destes, nos antigos: “A conquista enobrece e a posse avilta”. Ou, como dizia Goethe: “Nas batalhas da paixão, ganha aquele que foge”. 
Quantas vezes as relações humanas terminam ou se interrompem sem terem esgotado o potencial de possibilidades adivinhadas, intuídas, sentidas. Aí, o que não se esgotou clama por vir à tona e, muitas vezes, ameaça ocupar (e às vezes ocupa, efetivamente) todo o “ego”. 
Não é por outra razão que o apaixonado é o maior dos egoístas. Ao dedicar tudo ao objeto da paixão, está é alimentando a própria necessidade, seja de sofrimento, de idealização, de felicidade ou fantasia. Entupido de impossibilidades, ele clama. E a isso muitos chamam amor. Mas amor é coisa muito diversa… Amor não clama nem reclama: amor dá.

Artur da Távola

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Sentir

MARIA:
Amo como o amor ama.
Não sei razão pra amar-te mais que amar-te.
Que queres que te diga mais que te amo,
Se o que quero dizer-te é que te amo?
Não procures no meu coração…

Quando te falo, dói-me que respondas
Ao que te digo e não ao meu amor.
Quando há amor a gente não conversa:
Ama-se, e fala-se para se sentir.
Posso ouvir-te dizer-me que tu me amas,
Sem que mo digas, se eu sentir que me amas.
Mas tu dizes palavras com sentido,
E esqueces-te de mim; mesmo que fales
Só de mim, não te lembras que eu te amo.
Ah, não perguntes nada, antes me fala
De tal maneira, que, se eu fora surda,
Te ouvisse toda com o coração.

Se te vejo não sei quem sou; eu amo.
Se me faltas, (…)

Mas tu fazes, amor, por me faltares
Mesmo estando comigo, pois perguntas
Quando deves amar-me. Se não amas,
Mostra-te indiferente, ou não me queiras,
Mas tu és como nunca ninguém foi,
Pois procuras o amor pra não amar,
E, se me buscas, é como se eu só fosse
O Alguém pra te falar de quem tu amas.
Diz-me porque é que o amor te faz ser triste?
Canso-te? Posso eu cansar-te se amas?
Ninguém no mundo amou como tu amas.
Sinto que me amas, mas que a nada amas,
E não sei compreender isto que sinto.
Dize-me qualquer palavra mais sentida
Que essas palavras que, como se as perderas,
buscas
E encontras cinzas.

Quando te vi, amei-te já muito antes.
Tornei a achar-te quando te encontrei.
Nasci pra ti antes de haver o mundo.
Não há coisa feliz ou hora alegre
Que eu tenha tido pela vida fora,
Que não o fosse porque te previa,
Porque dormias nela tu futuro,
E com essas alegrias e esse prazer
Eu viria depois a amar-te. Quando,
Criança, eu, se brincava a ter marido,
Me faltava crescer e o não sentia,
O que me satisfazia eras já tu,
E eu soube-o só depois, quando te vi,
E tive para mim melhor sentido,
E o meu passado foi como uma estrada
Iluminada pela frente, quando
O carro com lanternas vira a curva
Do caminho e já a noite é toda humana.

Tens um segredo? Dize-mo, que eu sei tudo
De ti, quando m’o digas com a alma.
Em palavras estranhas que m’o fales,
Eu compreenderei só porque te amo.
Se o teu segredo é triste, eu saberei
Chorar contigo até que o esqueças todo.
Se o não podes dizer, dize que me amas,
E eu sentirei sem qu’rer o teu segredo.

Quando eu era pequena, sinto que eu
Amava-te já hoje, mas de longe,
Como as coisas se podem ver de longe,
E ser-se feliz só por se pensar
Em chegar onde ainda se não chega.

Amor, diz qualquer coisa que eu te sinta!

FAUSTO:
Compreendo-te tanto que não sinto.
Oh coração exterior ao meu!
Fatalidade filha do destino
E das leis que há no fundo deste mundo!
Que és tu a mim que eu compreenda ao ponto
De o sentir…?

MARIA:
Para que queres compreender
Se dizes qu’rer sentir?

Fernando Pessoa

Vou-me Embora de Mim

Vou-me Embora de Mim (Joaquim Pessoa)

Tenho todas as contradições de um homem livre
e apenas vivo amarrado à minha liberdade. Rejeito o sonho
e quando durmo, durmo. Sou eterno em cada segundo.
É evidente que não tenho de procurar o que é evidente.
Quem luta pela liberdade luta pela vida e eu
não me canso de lutar, de procurar o cristal profundo,
o infatigável cristal que há milhões de anos
não era mais do que um pedaço de chuva.
Constelações de ideias, violentíssimos enxames
de sílabas, de palavras, têm-se deslocado num universo
finito, este cosmos de província que é a minha vida.
E aqui, de sete em sete dias posso contar um sábado,
dispondo de meses previsivelmente iguais na sua gestação,
sei como eles começam e acabam, como
recomeçam e voltam a acabar, só não consigo
lembrar-me do meu nascimento
e da minha morte não guardarei memória.

Sou um homem livre de contradições, isto é,
sou um homem livre, de contradições. E confesso-o
como defesa antecipada à justa acusação. O escritor
é um homem de dicções e de contra-dicções, de escritas
e de contra-escritas, aquele que diz e contra-diz,
que escreve contra si a seu favor. O escritor
é uma espécie de silêncio cheio de gritos mas também
uma espécie de grito almofadado com silêncios.
O escritor é alguém que já morreu setenta vezes.
Que já teve para si setenta vidas. Setenta oportunidades
que aproveitou para escrever sempre as mesmas coisas.
E não conseguirá escrever nada realmente diferente
nem que viva e morra por mais setenta vezes.
É amarrado a esta condição que o escritor é livre.
É amarrado à liberdade que o escritor está preso.
Ninguém poderá fazer de um escritor alguém feliz.
Na vida inquieta do escritor há um homem 
que tem medo de sonhar. Um homem cuja
coerência está na luta que tem consigo mesmo.
Porque, para o escritor, os outros que se lixem.
Porque, para o escritor, os outros são indispensáveis.