Bom dia, meu amor!

BOM DIA, MEU AMOR! -Joaquim Pessoa

Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.
E sobre a tua pele que a minha adora,
navega o meu desejo, esse navio
que sempre parte e nunca vai embora.
E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês, ou uma hora,
não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.
E calam-se as palavras, uma a uma,
feitas de sal, saliva, dor e espuma,
com a exacta dosagem da alegria.
Bom dia, meu amor! O teu sorriso
é tudo o que me falta, o que eu preciso
para acender a luz de cada dia.

Luta

Luta

Com todas as tuas forças luta
Ainda que o cansaço tantas vezes te vença
E a desesperança seja o teu leito
E á tua volta os mais altos muros se ergam
Ninguém te disse que seria fácil
Mesmo que percas faz a diferença
Não sejas mais um fantoche desta sociedade podre
O mundo avança por utopias não por meras ambições
Eu já nasci revoltada
Nunca conformada
Usa o sonho usa a palavra
Usa a tua arma
Às vezes só é preciso um pouco de fé
E uma esperança desmedida para mudar o mundo
E o silêncio é a arma dos opressores
Grita a plenos pulmões
Talvez um dia
Nem que seja o teu eco
Faça a diferença

Dulce Antunes

O tempo

E se te perderes na urgência das coisas que se são, mas jamais se terão, cristalizarás as ondas nesse mar imenso por onde espreitas á procura dos olhos.
O tempo? O tempo é mais alta das falácias, tão pequena na ordem das coisas criadas, que faz acreditar que a urgência existe e que te perdes nela, como num mar sem bússola.
Então que te ensinaram a sucessão das horas perdidas, a não ser poemas desconexos e gargalhadas que de tão longínquas parecem espuma? Que te ensinou o vento norte para além do frio?
A vida? A vida é este labirinto verde com cheiro a fruta e a beijos e que pelo meio renasce nalguns espelhos, (que se se partem) te deixarão nas mãos a maldição do vazio, sem reflexo, nem música para dançares á noite no frio do jardim.
A sorte? A sorte é que amanhece sempre, e o sol te entra pela janela dos olhos, sem cortinas, sem cerimónias, sem nenhum ritual que tu controles ou sequer conheças, e a beleza acontece para lá das rugas que a roupa faz quando te esperguiças.
Então descobres que a felicidade acontece simplesmente. Dura ou não, e está bem assim mesmo, porque jamais deixarás de respirar apenas porque o sol se põe, e voltarás a ser de novo , sem urgências, sem bens, sem ruas pré definidas, apenas olhando-te no horizonte e sendo.

Vanda Caetano Vaz Carvalho