Os diferentes pensamentos de Ocidente e Oriente

Durante um jantar em Kyoto, o professor coreano Tae-Chang Kim analisa as diferenças entre o pensamento ocidental e oriental.

“Ambas as civilizações têm uma regra de ouro. No Ocidente, vocês dizem: farei para meu próximo aquilo que gostaria de fazer para mim. Isto significa: aquele que ama, é quem estabelece as condições em que o amor pode se manifestar”.

“A regra de ouro do Oriente parece quase igual: não farei ao meu próximo aquilo que não desejo que ele fizesse comigo. Mas ela parte do que a outra pessoa está sentindo, isto faz toda a diferença”.

“Para melhorar o mundo, não impomos uma maneira de demonstrar nosso amor, mas sim evitar a manifestação da nossa raiva”.

Paulo Coelho

 

Usar os dois bolsos

Um discípulo comentou com o rabino Bounam de Pssiskhe:

“O mundo material parece sufocar o mundo espiritual”.

“Sua calça tem dois bolsos”, disse Bouhnam. “Escreva no direito: o mundo foi criado apenas para mim. No bolso esquerdo, escreva: eu não sou nada além de pó e cinzas. Divida bem teu dinheiro nestes dois lugares. Quando vires a miséria e a injustiça, lembra que o mundo existe apenas para que possas manifestar tua bondade, e usa o dinheiro do bolso direito. Quando estiveres tentado a adquirir coisas que não te fazem a menor falta, lembra do que está escrito no teu bolso esquerdo, e pensa várias vezes antes de gastá-lo. Desta maneira, o mundo material nunca sufocará o mundo espiritual”.

Paulo Coelho

Os livros e o objetivo da vida

A glória do mundo é passageira, e não é ela que nos dá a dimensão de nossa vida – mas a escolha que fazemos, de seguir nossa lenda pessoal, acreditar em nossas utopias, e lutar por elas. Somos todos protagonistas de nossas existências, e muitas vezes são os heróis anônimos que deixam as marcas mais duradouras.

Conta uma lenda japonesa que certo monge, entusiasmado pela beleza do livro chinês Tao Te King, resolveu levantar fundos para traduzir e publicar aqueles versos em sua língua pátria. Demorou dez anos até conseguir o suficiente.

Entretanto, uma peste assolou seu país, e o monge resolveu usar o dinheiro para aliviar o sofrimento dos doentes. Mas assim que a situação se normalizou, de novo partiu para arrecadar a quantia necessária à publicação do Tao; mais dez anos se passaram, e quando já se preparava para imprimir o livro, um maremoto deixou centenas de pessoas desabrigadas.

O monge de novo gastou o dinheiro na reconstrução de casas para os que tinham perdido tudo. Outros dez anos correram, ele tornou a arrecadar o dinheiro, e finalmente o povo japonês pôde ler o Tao Te King.

Dizem os sábios que, na verdade, esse monge fez três edições do Tao: duas invisíveis, e uma impressa. Ele acreditou na sua utopia, combateu o bom combate, manteve a fé em seu objetivo, mas não deixou de prestar atenção ao seu semelhante. Que seja assim com todos nós: às vezes os livros invisíveis, nascidos da generosidade para com o próximo, são tão importantes quanto aqueles que ocupam nossas bibliotecas.

Paulo Coelho