Para Ti

Para Ti

Foi para ti
que desfolhei a chuva
para ti soltei o perfume da terra
toquei no nada
e para ti foi tudo

Para ti criei todas as palavras
e todas me faltaram
no minuto em que talhei
o sabor do sempre

Para ti dei voz
às minhas mãos
abri os gomos do tempo
assaltei o mundo
e pensei que tudo estava em nós
nesse doce engano
de tudo sermos donos
sem nada termos
simplesmente porque era de noite
e não dormíamos
eu descia em teu peito
para me procurar
e antes que a escuridão
nos cingisse a cintura
ficávamos nos olhos
vivendo de um só
amando de uma só vida

Mia Couto

Mia Couto e Gustavo Rocha

Não quero o primeiro beijo:
basta-me
o instante antes do beijo.
Quero-me
corpo ante o abismo,
terra no rasgão do sismo.
O lábio ardendo
entre tremor e temor,
o escurecer da luz
no desaguar dos corpos:
o amor
não tem depois.
Quero o vulcão
que na terra não toca:
o beijo antes de ser boca.
[Mia Couto]

E quem não quer ser apaixonado antes de ter a carne e o prazer mundano, por assim dizer?

Quem não quer sentir, prever, anteceder, provar o nectar da mente e do corpo em êxtase antes de tudo ser?

Viver e sentir é prazer, sonhar e realizar é a vida em plenitude do acontecer!

[Gustavo Rocha]

 

BIOFAGIA

É vitalício: comer a Vida
deitando-a entontecida
sobre o linho do idioma.

Nesse leito transverso
dispo-a com um só verso.

Até chegar ao fim da voz.

Até ser um corpo sem foz.

[Mia Couto]

 

Assim vivo minha poesia, com escritos regulares de palavras desenformes,

Para chegar a conclusão da solidão da minha voz:

Escrevo para gritar, leio para escutar e escrevo para sonhar.

[Gustavo Rocha]

 

O tempo

Mente o tempo:
a idade que tenho
só se mede por infinitos.

Pois eu não vivo por extenso.

Apenas fui a Vida
em relampejo do incenso.

Quando me acendi
foi nas abreviaturas do imenso.
Mia Couto