ALIANÇA

Interessante texto do Veríssimo, publicado em 1986… Tão atual… Uma reflexão importante para este dia 5 de Outubro que se avizinha…

 

ALIANÇA

LUÍS FERNANDO VERÍSSIMO

A reunião das lideranças dos dois partidos para tratar da sua aliança nas próximas eleições começou com algum mal-estar. Ninguém podia esquecer que um ano antes aquelas mesmas lideranças tinham trocado pesados insultos, um partido chamara o outro de “rebotalho do autoritarismo” e o outro respondera com “escória do pseudopopulismo”, e a coisa chegara a termos pessoais, com um líder se referindo ao outro como “aleijado moral” e o outro dizendo que não responderia, porque “resposta pra cachorro louco é pontapé”. E agora ali estavam os dois se apertando as mãos.

Depois de um cafezinho e duas ou três piadas, no entanto, o ambiente se descontraiu e os seis – três de cada partido – soltaram as gravatas e passaram a discutir a aliança como velhos amigos.

– Acho que as nossas diferenças são perfeitamente conciliáveis.

– Também acho.

– Claro.

– Isso.

– Sem dúvida.

– Puxa.

– Podemos divergir em detalhes, mas basicamente estamos de acordo.

– Exato.

– A questão agrária, por exemplo. Achamos que a solução é, em longo prazo, acabar com o minifúndio, doar as terras dos pequenos proprietários para as grandes empresas agrícolas privadas e deixar que a Igreja cuide dos agricultores sem terra, já que a sua missão na Terra não é fazer política, mas consolar os aflitos.

– Bem. A nossa posição, como vocês sabem, é por uma solução num prazo um pouco mais curto. Defendemos a desapropriação sem pagamento das grandes propriedades, o fuzilamento dos latifundiários e a distribuição imediata das suas terras.

– Aí está. Uma diferença apenas de graduação.

– Concordamos no essencial: que o problema existe.

– Exato.

– Somos pela estatização imediata das multinacionais e a gradual socialização de todos os meios de produção no país.

– Nós não vamos tão longe. Achamos que devem ser eliminadas todas as restrições ao investimento estrangeiro no país e toda a legislação social, inclusive o direito de greve, que constrange a livre empresa nacional e afasta o investidor internacional.

– Quer dizer, nada que não se possa resolver em duas ou três reuniões.

– Exato.

– Acho que a nossa plataforma comum deve conter alguma coisa sobre os direitos das mulheres. Nós somos irrestritamente a favor de plenos direitos para todas as mulheres.

– Nós achamos que lugar de mulher é na cozinha.

– Não vai ser difícil chegar a um meio-termo. O que mais?

– Bom… Tem a questão da distribuição dos cargos no governo.

– Mas aí não há o que discutir.

– Como não há o que discutir?

– Nosso peso na aliança será maior. Exigimos a maioria dos cargos e não abrimos mão disso.

– Ah é? Ah é?

– É sim.

– Pois sem nós vocês não ganham a eleição e aí ninguém vai ter cargo no governo.

– Quantos cargos vocês querem?

– Metade.

– O quê?!

– Meio a meio ou não tem aliança.

A discussão esquentou. Afinal, tinham chegado numa questão de princípios.

(publicado na revista VEJA, em 10.9.1986)

Tecnologia

Para quem ainda tem medo de computadores, o relato do Veríssimo é sensacional:

 

Tecnologia

Para começar, ele nos olha nos olha na cara. Não é como a máquina de escrever, que a gente olha de cima, com superioridade. Com ele é olho no olho ou tela no olho. Ele nos desafia. Parece estar dizendo: vamos lá, seu desprezível pré-eletrônico, mostre o que você sabe fazer. A máquina de escrever faz tudo que você manda, mesmo que seja a tapa. Com o computador é diferente. Você faz tudo que ele manda. Ou precisa fazer tudo ao modo dele, senão ele não aceita. Simplesmente ignora você. Mas se apenas ignorasse ainda seria suportável. Ele responde. Repreende. Corrige. Uma tela vazia, muda, nenhuma reação aos nossos comandos digitais, tudo bem. Quer dizer, você se sente como aquele cara que cantou a secretária eletrônica. É um vexame privado. Mas quando você o manda fazer alguma coisa, mas manda errado, ele diz “Errado”. Não diz “Burro”, mas está implícito. É pior, muito pior. Às vezes, quando a gente erra, ele faz “bip”. Assim, para todo mundo ouvir. Comecei a usar o computador na redação do jornal e volta e meia errava. E lá vinha ele: “Bip!” “Olha aqui, pessoal: ele errou.” “O burro errou!”
Outra coisa: ele é mais inteligente que você. Sabe muito mais coisa e não tem nenhum pudor em dizer que sabe. Esse negócio de que qualquer máquina só é tão inteligente quanto quem a usa não vale com ele. Está subentendido, nas suas relações com o computador, que você jamais aproveitará metade das coisas que ele tem para oferecer. Que ele só desenvolverá todo o seu potencial quando outro igual a ele o estiver programando. A máquina de escrever podia ter recursos que você nunca usaria, mas não tinha a mesma empáfia, o mesmo ar de quem só agüentava os humanos por falta de coisa melhor, no momento. E a máquina, mesmo nos seus instantes de maior impaciência conosco, jamais faria “bip” em público.
Dito isto, é preciso dizer também que quem provou pela primeira vez suas letrinhas dificilmente voltará à máquina de escrever sem a sensação de que está desembarcando de uma Mercedes e voltando à carroça. Está certo, jamais teremos com ele a mesma confortável cumplicidade que tínhamos com a velha máquina. É outro tipo de relacionamento, mais formal e exigente. Mas é fascinante. Agora compreendo o entusiasmo de gente como Millôr Fernandes e Fernando Sabino, que dividem a sua vida profissional em antes dele e depois dele. Sinto falta do papel e da fiel Bic, sempre pronta a inserir entre uma linha e outra a palavra que faltou na hora, e que nele foi substituída por um botão, que, além de mais rápido, jamais nos sujará os dedos, mas acho que estou sucumbindo. Sei que nunca seremos íntimos, mesmo porque ele não ia querer se rebaixar a ser meu amigo, mas retiro tudo o que pensei sobre ele. Claro que você pode concluir que eu só estou querendo agradá-lo, precavidamente, mas juro que é sincero.
Quando saí da redação do jornal depois de usar o computador pela primeira vez, cheguei em casa e bati na minha máquina. Sabendo que ela agüentaria sem reclamar, como sempre, a pobrezinha.

Luis Fernando Veríssimo

Tu e Eu

Tu e Eu

Somos diferentes, tu e eu.
Tens forma e graça
e a sabedoria de só saber crescer
até dar pé.
En não sei onde quero chegar
e só sirvo para uma coisa
– que não sei qual é!
És de outra pipa
e eu de um cripto.
Tu, lipa
Eu, calipto.

Gostas de um som tempestade
roque lenha
muito heavy
Prefiro o barroco italiano
e dos alemães
o mais leve.
És vidrada no Lobão
eu sou mais albônico.
Tu,fão.
Eu,fônico.

És suculenta
e selvagem
como uma fruta do trópico
Eu já sequei
e me resignei
como um socialista utópico.
Tu não tens nada de mim
eu não tenho nada teu.
Tu,piniquim.
Eu,ropeu.

Gostas daquelas festas
que começam mal e terminam pior.
Gosto de graves rituais
em que sou pertinente
e, ao mesmo tempo, o prior.
Tu és um corpo e eu um vulto,
és uma miss, eu um místico.
Tu,multo.
Eu,carístico.

És colorida,
um pouco aérea,
e só pensas em ti.
Sou meio cinzento,
algo rasteiro,
e só penso em Pi.
Somos cada um de um pano
uma sã e o outro insano.
Tu,cano.
Eu,clidiano.

Dizes na cara
o que te vem a cabeça
com coragem e ânimo.
Hesito entre duas palavras,
escolho uma terceira
e no fim digo o sinônimo.
Tu não temes o engano
enquanto eu cismo.
Tu,tano.
Eu,femismo.

Luis Fernando Veríssimo