Canções

CANÇÕES

KHALIL GIBRAN

A CANÇÃO DO ENAMORADO

Nas profundezas de minha alma, há uma canção que não aceita as palavras por vestidos, uma canção que habita o mais íntimo do meu ser e não quer espalhar-se em tinta no papel. Envolve meu coração como um invólucro transparente, e não quer passar por minha língua como um floco de neve.

Como a exaltar, se receio para ela até as vibrações do éter? E para quem a cantar, se ela se habituou a viver na morada de minha alma, e se temo para ela a rudeza dos ouvidos?

É a canção do amor, ó gente! Onde está o lsaac que a entoará e o Davi que a cantará? Que mortal pode repetir as canções dos deuses?

A CANÇÃO DA ONDA

Eu e a praia somos dois enamorados que a paixão junta e os ventos separam. Venho de além do horizonte azul para misturar a prata da minha espuma com o ouro das suas areias, e para esfriar o calor de seu coração com minha saliva.

Na aurora, confesso minha paixão à minha amada, e ela me aperta contra seu coração; e à tarde, canto minha saudade, e ela me cobre de beijos.

Sou impaciente e agitado; e minha amada é paciente e mansa.

Sobe a preamar, e consigo abraçar minha amada; desce a baixa-mar, e só consigo jogar-me aos seus pés.

Quantas vezes dancei para as sereias quando subiam das profundezas e se sentavam nas pedras para contemplar as estrelas! E quantas vezes ouvi um enamorado exalar as dores de sua paixão, e acompanhei suas queixas e lamentos!

E quantos corpos salvei dos abismos, devolvendo-os ao mundo dos vivos. E quantas pérolas roubei ao fundo do mar e as trouxe de presentes às belas!

Na quietude da noite, quando todas as criaturas se entregam ao sono, continuo desperto, cantando e gemendo alternadamente. As vigílias me enfraqueceram. Mas que fazer? Amo!

A CANÇÃO DA BELEZA

Sou o guia do amor, sou o vinho da alma, sou o alimento do coração, sou uma rosa que abre as pétalas na juventude do dia; e a mulher me recolhe, me beija e me coloca no seu peito.

Sou a morada da felicidade, sou a fonte da alegria, sou o começo do repouso, sou um sorriso suave nos lábios de uma beldade. Ao ver-me, o jovem esquece suas fadigas; e a sua vida torna-se um palco para sonhos deliciosos.

Sou a inspiração dos poetas, sou o guia dos artistas, sou o mestre dos músicos.

Sou uma luz nos olhos da criança: a mãe a vê e cai de joelhos a bendizer a Deus.

Apareci a Adão no corpo de Eva e escravizei-o; e apareci a Salomão no corpo de suas amadas, e tornei-o sábio e poeta.

Sorri a Helena, e ela destruiu Tr6ia. Coroei Cle6patra, e a alegria encheu o Vale do Nilo.

Sou como o Tempo: construo hoje e destruo amanhã. Sou como Deus: distribuo a vida e a morte.

Sou mais delicada que o sorriso da violeta e mais fogosa que o temporal.

Sou uma realidade! Eis o que há de melhor em mim.

A CANÇÃO DA FELICIDADE

O homem é meu amado, e eu sou a sua amada. Sinto falta dele, e ele me adora. Mas, ai, tenho uma rival que disputa seu amor e me atormenta. Chama-se Matéria. Segue-nos aonde quer que vamos e nos desune e separa.

Procuro meu amado sob as árvores das campinas e à margem dos lagos, e não o encontro, porque a Matéria o seduziu e o levou à cidade, à vida social e ao vício e à desventura.

Procuro-o nos institutos do saber e nos templos da sabedoria; mas não o encontro, porque a Matéria, aquela que veste o pó da terra, o conduziu aos antros do egoísmo onde foi açambarcado.

Procuro-o nos campos do contentamento, e não o encontro, porque minha rival o mantém preso nas grutas da ganância e da gula.

Chamo-o de madrugada quando o Oriente sorri, mas ele não me ouve, porque o sono do egoísmo pesa nas suas pálpebras.

Brinco com ele à noite, quando a quietude se espalha e as flores dormem, mas ele me despreza, porque suas preocupações com o dia seguinte sobrecarregam sua mente.

Meu amado me ama. Procura-me nos seus afazeres, mas ele só me encontrará nos afazeres de Deus. Anseia por possuir-me no palácio da glória, que ele edificou sobre os crânios dos humildes, e entre seus cofres cheios de prata e de ouro. E eu só aceito unir-me a ele na casa da simplicidade, que os deuses construíram à margem do rio dos sentimentos.

Meu amado aprendeu de minha rival, a Matéria, os gritos e o barulho; mas eu lhe ensinarei a verter uma lágrima de compaixão dos olhos de sua alma, e a exalar um suspiro de contentamento.

Meu amado me pertence, e eu lhe pertenço.

Ainda ontem pensava que não era

Ainda ontem pensava que não era

Ainda ontem pensava que não era

mais do que um fragmento trémulo sem ritmo

na esfera da vida.

Hoje sei que sou eu a esfera,

e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:

” Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia

sobre a margem infinita

de um mar infinito.”

E no meu sonho eu respondo-lhes:

“Eu sou o mar infinito,

e todos os mundos não passam de grãos de areia

sobre a minha margem.”

Só uma vez fiquei mudo.

Foi quando um homem me perguntou:

“Quem és tu?”

Khalil Gibran

Uma lágrima e um sorriso

Uma lágrima e um sorriso

Eu não trocaria as tristezas do meu coração
Para a alegria da multidão.
E eu não teria as lágrimas que a tristeza torna
A fluir a partir de minha cada parte se transformar em riso.

Eu gostaria que a minha vida continuam a ser uma lágrima e um sorriso.

Uma lágrima para purificar meu coração e me dê entendimento
Segredos da vida e das coisas ocultas.
Um sorriso para me aproximar para os filhos de minha espécie e
Para ser um símbolo da minha glorificação dos deuses.

Uma lágrima para me unir com os de coração quebrantado;
Um sorriso como um sinal da minha alegria na existência.

Eu preferiria que eu morri em anseio e desejo de que eu vivo cansado e desesperado.

Eu quero a fome de amor e beleza para estar na
Profundezas do meu espírito, porque eu vi aqueles que são
Satisfeito o mais miserável de pessoas.
Eu ouvi o suspiro dos que estão no anseio e desejo, e é mais doce que o doce melodia.

Com a noite vem a flor dobra suas pétalas
E dorme, saudade embracingher.
Na abordagem da manhã ela abre os lábios para atender
O beijo do sol.

A vida de uma flor é desejo e realização.
Uma lágrima e um sorriso.

As águas do mar tornam-se vapor e subir e vir
Juntos e cloud área.

E a nuvem flutua sobre as colinas e vales
Até encontrar a brisa suave, em seguida, cai a chorar
Para os campos e se une com riachos e rios para voltar para o mar, a sua casa.

A vida das nuvens é uma despedida e uma reunião.
Uma lágrima e um sorriso.

E assim é que o espírito se separar
O maior espírito a mover-se no mundo da matéria
E passar como uma nuvem sobre a montanha de tristeza
E as planícies de alegria para atender a brisa da morte
E voltar de onde veio.

Para o oceano do amor e da beleza —- a Deus.

Khalil Gibran

Original em inglês:

A Tear And A Smile

I would not exchange the sorrows of my heart
For the joys of the multitude.
And I would not have the tears that sadness makes
To flow from my every part turn into laughter.

I would that my life remain a tear and a smile.

A tear to purify my heart and give me understanding
Of life’s secrets and hidden things.
A smile to draw me nigh to the sons of my kind and
To be a symbol of my glorification of the gods.

A tear to unite me with those of broken heart;
A smile to be a sign of my joy in existence.

I would rather that I died in yearning and longing than that I live Weary and despairing.

I want the hunger for love and beauty to be in the
Depths of my spirit,for I have seen those who are
Satisfied the most wretched of people.
I have heard the sigh of those in yearning and Longing, and it is sweeter than the sweetest melody.

With evening’s coming the flower folds her petals
And sleeps, embracingher longing.
At morning’s approach she opens her lips to meet
The sun’s kiss.

The life of a flower is longing and fulfilment.
A tear and a smile.

The waters of the sea become vapor and rise and come
Together and area cloud.

And the cloud floats above the hills and valleys
Until it meets the gentle breeze, then falls weeping
To the fields and joins with brooks and rivers to Return to the sea, its home.

The life of clouds is a parting and a meeting.
A tear and a smile.

And so does the spirit become separated from
The greater spirit to move in the world of matter
And pass as a cloud over the mountain of sorrow
And the plains of joy to meet the breeze of death
And return whence it came.

To the ocean of Love and Beauty—-to God.