Sobre ti

Movo-me feliz nos corredores da tua respiração, escrevo-te
com o orgulho que têm as roseiras e os lilases, a ti me entrego,
em ti me afogo, de ti renasço para a vida todos os dias.
E por ti, sou caçador de mim. E sou de mim o bobo, e de ti o
paladino. A minha juventude morreu antes de ti, mas só depois
de ti a minha vida é realmente jovem.
No meu corpo o teu sangue se agita, no teu espírito floresce
o meu, nas nossas bocas se prolonga a primavera, quando a
felicidade é para nós tão alta como o voo do pássaro que tem
sede e tem fome de céu.

Joaquim Pessoa

Dizer catorze versos ao acaso

Dizer catorze versos ao acaso,

falar de ti, de mim, falar de nós.

De nós, que nos cantamos num abraço

e que nos abraçamos com a voz.

Que vou dizer de ti, eu, que te amo

e isso é ter-te em mim, como se eu fosse

cada um dos momentos em que chamo

por Deus que me criou quando te trouxe.

Ó meu amor, que vou dizer-te agora

quando nada me chega para o canto

que de ti se alimenta e me devora?

Cantar-te, estando lúcido, é estar louco.

Não sei que mais dizer-te nesta hora,

pois dizer que te amo é muito pouco.

Joaquim Pessoa

Tua juventude

A tua juventude é um quadrado branco

desenhado no sol.As sílabas de água

fazem-te justiça.Ainda é possível ser lúcido,liso, perfumado,

ter a pele do poema como casa.Há em ti

coisas que não espero:um lince silencioso,

a luz da seiva, uma lâmina,

um peixe.Volto a tua imagem para mim.És real. Existes

no equilíbrio das estações,

na textura da seda lisa pelas minhas mãos.Não há pétalas onde pisas.Há perguntas.O meu nome transborda dos teus lábios,

boca respirando o instinto das abelhas.Esta alegria é um momento de escriba,

tem a paz das ardósias,das aldeias, do húmus e do ouro.

Nela entraste como relâmpago, como ave,E empurras a minha vida para o sol

com a tua juventude.

Joaquim Pessoa