Dia 171

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Ofício de inocência sob os sabres do sol e o ferimento dos frutos.

Razão pura, como a de quem se esqueceu do nome das ruas azuis de uma canção, melodia antiga sobre o poema tão jovem como uma pomba adolescente.

Amo-te porque não poderia deixar de ser assim, e por isso vivo como se emti endireitasse paisagens dependuradas de tudo quanto sou.

No verão que te acende o corpo, apenas uma rosa se ergue sobre as dunas, recortada no azul, alimentando-se de pedacinhos de vento, definitivamente silenciosa na sua forma rubra de gritar.

O brilho dos meus nervos continua a cintilar quando desço as minhas mãos sobre as tuas ancas, ou as ancoro firmemente no teu peito durante cada tempestade de beijos.

As palavras, soltas como as ilhas de um arquipélago, entrecortam-te a respiração ofegante, e dão abrigo ao desejo de me transformar entre os teus braços, voltar a ser peixe aos olhos da paisagem, pescador de pérolas na tua boca, mergulhador na inebriante profundidade das grutas mais escuras do que em ti respira.

E tudo o que em mim é ainda criança, joga e brinca nos teus músculos beijados por uma luz tranquila que não será abandono nunca mais, antes festa solar, eclipse total de duas bocas que se vão fundindo até se tornarem sangue, serenidade e música.

E essa dulcíssima luz que nos acende a carne sob a pele, não quer senão iluminar cada um dos nossos dias, agora inspirados pelas mais transfiguradas noites de amor

Joaquim Pessoa 

in ANO COMUM – pág. 186

Viver é…

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, in ‘Ano Comum’

Sobre ti

Movo-me feliz nos corredores da tua respiração, escrevo-te
com o orgulho que têm as roseiras e os lilases, a ti me entrego,
em ti me afogo, de ti renasço para a vida todos os dias.
E por ti, sou caçador de mim. E sou de mim o bobo, e de ti o
paladino. A minha juventude morreu antes de ti, mas só depois
de ti a minha vida é realmente jovem.
No meu corpo o teu sangue se agita, no teu espírito floresce
o meu, nas nossas bocas se prolonga a primavera, quando a
felicidade é para nós tão alta como o voo do pássaro que tem
sede e tem fome de céu.

Joaquim Pessoa