Amei demais

AMEI DEMAIS 
Joaquim Pessoa

Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais 
todas as coisas que na vida eu emprenhei. 
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais, 
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais. 
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei 
do imenso mar de sol, sem praia ou cais, 
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei 
está espalhado pelos sítios onde vais 
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais. 
E os milhares de versos que rasguei 
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

Rir

– ‘Rir é arriscar-se a parecer tolo’. Bem, e daí? Os tolos se divertem muito.- ‘Chorar é arriscar-se a parecer sentimental’. Claro que sou sentimental. Adoro isso! As lágrimas podem ajudar.-“Procurar outro é arriscar-se a se envolver’. Quem é que está se arriscando a se envolver! Eu quero me envolver.- ‘Expor seus sentimentos é ariscar-se a mostrar o seu verdadeiro ser’. O que mais tenho para mostrar?- ‘Expor suas idéias e sonhos diante do povo é arriscar-se a ser chamado de ingênuo’. Ah, me chamam de coisas piores que isso.- ‘Viver é arriscar-se a morrer’. Estou pronto para isso. Não ouse verter uma lágrima se souber que Buscaglia explodiu pelos ares ou morreu. Ele o fez com entusiasmo.- ‘Esperar é arriscar-se ao desespero e experimentar é arriscar-se ao fracasso’. Mas os riscos têm que ser corridos, pois o maior risco na vida é não arriscar nada. A pessoa que não arrisca nada, não faz nada, não tem nada, não é nada e não se torna coisa alguma. Pode evitar o sofrimento e a tristeza, mas não pode aprender, sentir, modificar-se, crescer, amar e viver. Acorrentado por suas certezas, é um escravo. Foi privado do direito de sua liberdade.Somente a pessoa que arrisca é verdadeiramente livre. Experimente e veja o que acontece.

Leo Buscaglia

A árvore dos pássaros

A ÁRVORE DOS PÁSSAROS

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” Sem nenhuma resposta, o sangue das perguntas
respira com a tristeza de um animal à chuva e não sabe
o que oferecer ao dia, nem como assombrar o mundo. E
eu escuto-me em ti, carregado de sílabas douradas e de
inconfessáveis intimidades com o fogo que ainda guardo
na memória. Toco com doçura a obscuridade da terra
e escolho para mim uma árvore onde possa adormecer
os meus olhos quase verdes de deslumbramento, pobre
árvore amiga, carregada de pássaros, coloridos frutos
nascidos da luz de uma qualquer imensa tempestade.
E sei que só é capaz de amar até à exaustão, quem for,
como eu, filho de um pássaro e de uma pergunta.”

Joaquim Pessoa