A imensa alegria de servir

Toda natureza é um desejo de serviço.
Serve a nuvem, serve o vento, serve o sulco.
Onde houver uma árvore para plantar,
planta-a tu;
onde houver um erro para corrigir,
corrige-o tu;
onde houver uma tarefa que todos recusem,
aceita-a tu.

Sê quem tira
a pedra do caminho,
o ódio dos corações
e as dificuldades dos problemas.

Há a alegria de ser sincero e de ser justo;
há, porém, mais do que isso,
a imensa alegria de servir.

Como seria triste o mundo
se tudo já estivesse feito,
se não houvesse uma roseira para plantar,
uma iniciativa para lutar!

Não te seduzam as obras fáceis.
É belo fazer tudo
que os outros se recusam a executar.

Não cometas, porém, o erro
de pensar que só tem merecimento executar
as grandes obras;
há pequenos préstimos que são bons serviços:
enfeitar uma mesa.
arrumar uns livros.
pentear uma criança.

Aquele é quem critica,
este é quem destrói;
sê tu quem serve.

Servir não é próprio dos seres inferiores:
Deus, que nos dá fruto e luz,
serve.
Poderia chamar-se: o Servidor.
E tem os seus olhos fixos nas nossas mãos
e pergunta-nos todos os dias:
– Serviste hoje?

Gabriela Mistral, poetisa chilena (1889-1957)

Fonte: http://belostextos.aaldeia.net/alegria-servir/

No mar, trezentos e sessenta e cinco dias

No mar, trezentos e sessenta e cinco dias

são quinze dias a menos em qualquer dos meses.
No mar sinto-me um relojoeiro,
homem sem pressa,
meditativo.
No mar não encontro defeitos em nada,
nem mesmo quando me dispo.
no mar não há cântaros rachados.
Não há conversas sobre a perfeição.
No mar sou um artífice igual,
tal é a perfeição do mar.
No mar não há zelos pela escuridão,
no mar só existe luz.
No mar só há avisos bons,
de animais,
do frio,
da natureza de que ninguém sabe.

Novembro de 2017
Texto: Manuel Peres

Crepúsculo

CREPÚSCULO

Suavemente chega o crepúsculo
com os seus cambiantes serenos
e reflexos fugazes
como etéreas folhas em queda
das árvores outonais

Arauto da noite próxima
prenúncio das horas leves
dos silêncios confortantes
e das solidões incógnitas

Refrescantes sombras crescentes
espalham-se sobre o cansaço
dos momentos já esgotados
na azáfama do dia
como um manto protector
de oblívios perdões

Efémera presença a tua
de brandos momentos tingidos
com tonalidades difusas
transitórios pedaços em mescla
de um bulício angustiado
e de um sossego ansiado

Cai a noite repousante
com os seus véus de mistério
encerrando a magia tépida
do crepúsculo passageiro

João Carlos Esteves, in “Gotas de Silêncio”, página 35, edições Temas Originais, 2011.