Dormi contigo


Dormi contigo toda a noite 
junto ao mar, na ilha. 
Eras doce e selvagem entre o prazer e o sono, 
entre o fogo e a água.

Os nossos sonos uniram-se 
talvez muito tarde 
no alto ou no fundo, 
em cima como ramos que um mesmo vento agita, 
em baixo como vermelhas raízes que se tocam.

O teu sono separou-se 
talvez do meu 
e andava à minha procura 
pelo mar escuro 
como dantes, 
quando ainda não existias, 
quando sem te avistar 
naveguei a teu lado 
e os teus olhos buscavam 
o que agora 
— pão, vinho, amor e cólera — 
te dou às mãos cheias, 
porque tu és a taça 
que esperava os dons da minha vida.

Dormi contigo 
toda a noite enquanto 
a terra escura gira 
com os vivos e os mortos, 
e ao acordar de repente 
no meio da sombra 
o meu braço cingia a tua cintura. 
Nem a noite nem o sono 
puderam separar-nos.

Dormi contigo 
e, ao acordar, tua boca, 
saída do teu sono, 
trouxe-me o sabor da terra, 
da água do mar, das algas, 
do âmago da tua vida, 
e recebi teu beijo, 
molhado pela aurora, 
como se me viesse 
do mar que nos cerca.

Pablo Neruda

Dois

Dois…
Apenas dois.
Dois seres…
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos
Frente a frente…
…Sempre…
…A se olharem…
Pensar talvez:
“Paralelos que se encontram no infinito…”
No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

Pablo Neruda

Teu riso

Divido a poesia de Pablo Neruda, que já publiquei outrora, mas agora ela tem mais significado ainda… Amo ouvir teu riso…

 

O teu riso

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbito
brota da tua alegria,
a repentina onda
de prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera , amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho,
quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

Pablo Neruda