Pego na tua mão

Pego na tua mão e beijo-a.

Pego na tua mão e danço.

Pego na tua mão e apresso o movimento da terra à volta de nós dois.

Pegar na tua mão é viver de novo a vida de uma forma inteira.

Inspiro-te.

Respiro-te.

O cansaço é doce, estupendo, para sempre.

À nossa volta tudo arde no fogo verde desta primavera, e a

inquietação é um fruto excitante, por colher.

Não pares.

Continua a dançar comigo.

Como se fizéssemos amor.

Joaquim Pessoa

Amo as coisas simples

A manhã rompe-se com o canto dos pássaros e as flores

amarelas pedem justiça ao vento, que saiu de casa feliz, 

para incendiar nos pensamentos a intimidade do dia. 

Ganham entusiasmo as minhas mãos, os olhos dizem-me

que hoje a felicidade é possível, que é de vida que se

alimenta a fogueira do amor.

E eu caminho com a sabedoria das coisas que escolheram

apaixonar-se pelo mar, essas coisas simples que procuram

tornar ainda mais simples cada minuto, cada gesto,

cada beijo.

Amo as coisas simples porque a sua simplicidade é a de

carregar o mundo, grávidas que estão da sua nudez,

sabendo que a morte não é mais que uma palavra e o amor

são todas as palavras, as doces e temíveis palavras que

vestem a vida de brocados e de sedas tão macias, tão raras,

tão intensas como a simples e profunda memória do

cheiro e do sabor que só tem a pele de uma mulher.

Joaquim Pessoa

Sabe-me a boca a nada

Sabe-me a boca a nada.

Sabe-me a boca a sombra.

Bebi a madrugada porque ela me deslumbra.

Matei a minha sede.

Esqueci a minha fome.

Soletrei as sílabas molhadas do teu nome.

E os pássaros que adejavam a luz do teu sorriso eram mais, muito mais do que é preciso para aninhar na minha carne a tua história, rainha das perguntas, princesa da memória.

Um dia hei-de servir-te palavras divertidas e colherei de um campo verde margaridas.

Beijarei tuas mãos, teus peitos, tuas ancas que cobrirei depois com essas flores brancas.

Farei muito amor contigo até de madrugada, até que a boca saiba a sombra e saiba a nada.

E tudo há-de depois recomeçar do zero.

Beberei de novo a madrugada em desespero, mas antes, gravarei, num dia como este, o meu e o teu nome na casca de um cipreste para que fique nesse tronco assinalado que o futuro tem presente e tem passado.

E então, minha rainha, princesa, meu amor, já podemos ir desta pra melhor.

Joaquim Pessoa