Amei demais

AMEI DEMAIS 
Joaquim Pessoa

Madruguei demais. Fumei demais. Foram demais 
todas as coisas que na vida eu emprenhei. 
Vejo-as agora grávidas. Redondas. Coisas tais, 
como as tais coisas nas quais nunca pensei.

Demais foram as sombras. Mais e mais. 
Cada vez mais ardentes as sombras que tirei 
do imenso mar de sol, sem praia ou cais, 
de onde parti sem saber por que embarquei.

Amei demais. Sempre demais. E o que dei 
está espalhado pelos sítios onde vais 
e pelos anos longos, longos, que passei

à procura de ti. De mim. De ninguém mais. 
E os milhares de versos que rasguei 
antes de ti, eram perfeitos. Mas banais.

A árvore dos pássaros

A ÁRVORE DOS PÁSSAROS

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” Sem nenhuma resposta, o sangue das perguntas
respira com a tristeza de um animal à chuva e não sabe
o que oferecer ao dia, nem como assombrar o mundo. E
eu escuto-me em ti, carregado de sílabas douradas e de
inconfessáveis intimidades com o fogo que ainda guardo
na memória. Toco com doçura a obscuridade da terra
e escolho para mim uma árvore onde possa adormecer
os meus olhos quase verdes de deslumbramento, pobre
árvore amiga, carregada de pássaros, coloridos frutos
nascidos da luz de uma qualquer imensa tempestade.
E sei que só é capaz de amar até à exaustão, quem for,
como eu, filho de um pássaro e de uma pergunta.”

Joaquim Pessoa

Peço-te

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti.

Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti. 
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor.

JOAQUIM PESSOA, in GUARDAR O FOGO (livro a publicar)