https://pixabay.com/pt/illustrations/dia-dos-namorados-decoração-corações-3946681/

Bom dia meu amor!

BOM DIA, MEU AMOR!

Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.
E sobre a tua pele que a minha adora,
navega o meu desejo, esse navio
que sempre parte e nunca vai embora.

E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês ou uma hora,
não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.

E calam-se as palavras, uma a uma,
feitas de sal, saliva, dor e espuma,
com a exacta dosagem da alegria.

Bom dia, meu amor! O teu sorriso
é tudo o que me falta, o que eu preciso
para acender a luz de cada dia.

Joaquim Pessoa, 
“Os dias não andam satisfeitos”, 
pág. 53, Edições Esgotadas, Março 2017.

https://pixabay.com/pt/photos/bosque-estrada-folhas-caindo-656969/

Um claro e obscuro caminho

Concordo com o poeta Joaquim Pessoa: A poesia pulsa, vibra e quando vem, muda o mundo, seja o nosso, seja de quem nos cerca!

UM CLARO E OBSCURO CAMINHO

*

“El canto de todos que es mi propio canto”.

(Violeta Parra)

Não posso preparar-me para o acto de escrever.
E, se pudesse, não saberia sequer que direcção
seguir. Estou mais perto que nunca de mim, sem
saber de mim. E escrevo. Torno-me parte da escrita
e passo a pertencer à incomensurável tribo das palavras,
ao país da fala. Vou pela linguagem como descendo
um rio, e então tudo acontece sem que eu saiba o que
vai acontecer. Escrever poesia é uma surpresa, não
um hábito. Sou tomado de assalto pelos versos,
mas sou eu que acendo neles a luz das sílabas para
comemorar, assim, o poema que ofereço intacto à
página, esse espaço agora iluminado na arquitectura
do livro. Mas só depois o leio. E só depois o sinto.
E sinto, então, que o canto não é meu É o canto
de todos, que é o meu próprio canto.

Joaquim Pessoa In QUE NOME DAR A ESTE LIVRO?, a publicar
pela Editora Edições Esgotadas.

Beijo no coração das gurias e abraço nos xirús!


Gustavo Rocha
Blog do Gustavo Rocha – PensarFazBem
gustavo@gustavorocha.com | (51) 98163.3333 |www.blogdogustavorocha.com.br

Palavra

POEMA NONAGÉSIMO

*

Quando escrevo “Boa noite!”, é mesmo
“Boa noite!”
que eu quero dizer. E é bom que as palavras
se habituem a ser verdadeiras e sinceras,
que não andem por aí,
nas bocas, nos livros, nos jornais,
a despudorar-se em mentiras ou estratégias
de vulgar inexatidão. O Poema tudo deve
à sua memória, a incendiada memória do futuro.
Cada verso é um sopro de vida que desfaz
os enigmas do mundo, faz ruir as paredes
clandestinas de cada milénio,
para escrever de novo na pedra, na argila, no papiro,
no dorso amigo do papel, um
rasto,
uma respiração, o vocábulo
claro,
livre,
novíssimo
por tanto ser antigo.

*

Joaquim Pessoa

in
GUARDAR O FOGO
Editora Edições Esgotadas.