Palavra

POEMA NONAGÉSIMO

*

Quando escrevo “Boa noite!”, é mesmo
“Boa noite!”
que eu quero dizer. E é bom que as palavras
se habituem a ser verdadeiras e sinceras,
que não andem por aí,
nas bocas, nos livros, nos jornais,
a despudorar-se em mentiras ou estratégias
de vulgar inexatidão. O Poema tudo deve
à sua memória, a incendiada memória do futuro.
Cada verso é um sopro de vida que desfaz
os enigmas do mundo, faz ruir as paredes
clandestinas de cada milénio,
para escrever de novo na pedra, na argila, no papiro,
no dorso amigo do papel, um
rasto,
uma respiração, o vocábulo
claro,
livre,
novíssimo
por tanto ser antigo.

*

Joaquim Pessoa

in
GUARDAR O FOGO
Editora Edições Esgotadas.

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Conta comigo sempre

Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue.
Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.
O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.

Joaquim Pessoa

Vou-me Embora de Mim

Vou-me Embora de Mim (Joaquim Pessoa)

Tenho todas as contradições de um homem livre
e apenas vivo amarrado à minha liberdade. Rejeito o sonho
e quando durmo, durmo. Sou eterno em cada segundo.
É evidente que não tenho de procurar o que é evidente.
Quem luta pela liberdade luta pela vida e eu
não me canso de lutar, de procurar o cristal profundo,
o infatigável cristal que há milhões de anos
não era mais do que um pedaço de chuva.
Constelações de ideias, violentíssimos enxames
de sílabas, de palavras, têm-se deslocado num universo
finito, este cosmos de província que é a minha vida.
E aqui, de sete em sete dias posso contar um sábado,
dispondo de meses previsivelmente iguais na sua gestação,
sei como eles começam e acabam, como
recomeçam e voltam a acabar, só não consigo
lembrar-me do meu nascimento
e da minha morte não guardarei memória.

Sou um homem livre de contradições, isto é,
sou um homem livre, de contradições. E confesso-o
como defesa antecipada à justa acusação. O escritor
é um homem de dicções e de contra-dicções, de escritas
e de contra-escritas, aquele que diz e contra-diz,
que escreve contra si a seu favor. O escritor
é uma espécie de silêncio cheio de gritos mas também
uma espécie de grito almofadado com silêncios.
O escritor é alguém que já morreu setenta vezes.
Que já teve para si setenta vidas. Setenta oportunidades
que aproveitou para escrever sempre as mesmas coisas.
E não conseguirá escrever nada realmente diferente
nem que viva e morra por mais setenta vezes.
É amarrado a esta condição que o escritor é livre.
É amarrado à liberdade que o escritor está preso.
Ninguém poderá fazer de um escritor alguém feliz.
Na vida inquieta do escritor há um homem 
que tem medo de sonhar. Um homem cuja
coerência está na luta que tem consigo mesmo.
Porque, para o escritor, os outros que se lixem.
Porque, para o escritor, os outros são indispensáveis.