Viver é…

Viver é uma peripécia. Um dever, um afazer, um prazer, um susto, uma cambalhota. Entre o ânimo e o desânimo, um entusiasmo ora doce, ora dinâmico e agressivo.
Viver não é cumprir nenhum destino, não é ser empurrado ou rasteirado pela sorte. Ou pelo azar. Ou por Deus, que também tem a sua vida. Viver é ter fome. Fome de tudo. De aventura e de amor, de sucesso e de comemoração de cada um dos dias que se podem partilhar com os outros. Viver é não estar quieto, nem conformado, nem ficar ansiosamente à espera.
Viver é romper, rasgar, repetir com criatividade. A vida não é fácil, nem justa, e não dá para a comparar a nossa com a de ninguém. De um dia para o outro ela muda, muda-nos, faz-nos ver e sentir o que não víamos nem sentíamos antes e, possivelmente, o que não veremos nem sentiremos mais tarde.
Viver é observar, fixar, transformar. Experimentar mudanças. E ensinar, acompanhar, aprendendo sempre. A vida é uma sala de aula onde todos somos professores, onde todos somos alunos. Viver é sempre uma ocasião especial. Uma dádiva de nós para nós mesmos. Os milagres que nos acontecem têm sempre uma impressão digital. A vida é um espaço e um tempo maravilhosos mas não se contenta com a contemplação. Ela exige reflexão. E exige soluções.
A vida é exigente porque é generosa. É dura porque é terna. É amarga porque é doce. É ela que nos coloca as perguntas, cabendo-nos a nós encontrar as respostas. Mas nada disso é um jogo. A vida é a mais séria das coisas divertidas.

Joaquim Pessoa, in ‘Ano Comum’

Sobre ti

Movo-me feliz nos corredores da tua respiração, escrevo-te
com o orgulho que têm as roseiras e os lilases, a ti me entrego,
em ti me afogo, de ti renasço para a vida todos os dias.
E por ti, sou caçador de mim. E sou de mim o bobo, e de ti o
paladino. A minha juventude morreu antes de ti, mas só depois
de ti a minha vida é realmente jovem.
No meu corpo o teu sangue se agita, no teu espírito floresce
o meu, nas nossas bocas se prolonga a primavera, quando a
felicidade é para nós tão alta como o voo do pássaro que tem
sede e tem fome de céu.

Joaquim Pessoa

Dizer catorze versos ao acaso

Dizer catorze versos ao acaso,

falar de ti, de mim, falar de nós.

De nós, que nos cantamos num abraço

e que nos abraçamos com a voz.

Que vou dizer de ti, eu, que te amo

e isso é ter-te em mim, como se eu fosse

cada um dos momentos em que chamo

por Deus que me criou quando te trouxe.

Ó meu amor, que vou dizer-te agora

quando nada me chega para o canto

que de ti se alimenta e me devora?

Cantar-te, estando lúcido, é estar louco.

Não sei que mais dizer-te nesta hora,

pois dizer que te amo é muito pouco.

Joaquim Pessoa