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Um claro e obscuro caminho

Concordo com o poeta Joaquim Pessoa: A poesia pulsa, vibra e quando vem, muda o mundo, seja o nosso, seja de quem nos cerca!

UM CLARO E OBSCURO CAMINHO

*

“El canto de todos que es mi propio canto”.

(Violeta Parra)

Não posso preparar-me para o acto de escrever.
E, se pudesse, não saberia sequer que direcção
seguir. Estou mais perto que nunca de mim, sem
saber de mim. E escrevo. Torno-me parte da escrita
e passo a pertencer à incomensurável tribo das palavras,
ao país da fala. Vou pela linguagem como descendo
um rio, e então tudo acontece sem que eu saiba o que
vai acontecer. Escrever poesia é uma surpresa, não
um hábito. Sou tomado de assalto pelos versos,
mas sou eu que acendo neles a luz das sílabas para
comemorar, assim, o poema que ofereço intacto à
página, esse espaço agora iluminado na arquitectura
do livro. Mas só depois o leio. E só depois o sinto.
E sinto, então, que o canto não é meu É o canto
de todos, que é o meu próprio canto.

Joaquim Pessoa In QUE NOME DAR A ESTE LIVRO?, a publicar
pela Editora Edições Esgotadas.

Beijo no coração das gurias e abraço nos xirús!


Gustavo Rocha
Blog do Gustavo Rocha – PensarFazBem
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Palavra

POEMA NONAGÉSIMO

*

Quando escrevo “Boa noite!”, é mesmo
“Boa noite!”
que eu quero dizer. E é bom que as palavras
se habituem a ser verdadeiras e sinceras,
que não andem por aí,
nas bocas, nos livros, nos jornais,
a despudorar-se em mentiras ou estratégias
de vulgar inexatidão. O Poema tudo deve
à sua memória, a incendiada memória do futuro.
Cada verso é um sopro de vida que desfaz
os enigmas do mundo, faz ruir as paredes
clandestinas de cada milénio,
para escrever de novo na pedra, na argila, no papiro,
no dorso amigo do papel, um
rasto,
uma respiração, o vocábulo
claro,
livre,
novíssimo
por tanto ser antigo.

*

Joaquim Pessoa

in
GUARDAR O FOGO
Editora Edições Esgotadas.

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Conta comigo sempre

Conta comigo sempre. Desde a sílaba inicial até à última gota de sangue.
Venho do silêncio incerto do poema e sou, umas vezes constelação e outras vezes árvore, tantas vezes equilíbrio, outras tantas tempestade. A nossa memória é um mistério, recordo-me de uma música maravilhosa que nunca ouvi, na qual consigo distinguir com clareza as flautas, os violinos, o oboé.
O sonho é, e será sempre e apenas, dos vivos, dos que mastigam o pão amadurecido da dúvida e a carne deslumbrada das pupilas. Estou entre vazios e plenitudes, encho as mãos com uma fragilidade que é um pássaro sábio e distraído que se aninha no coração e se alimenta de amor, esse amor acima do desejo, bem acima do sofrimento.
Conta comigo sempre. Piso as mesmas pedras que tu pisas, ergo-me da face da mesma moeda em que te reconheço, contigo quero festejar dias antigos e os dias que hão-de vir, contigo repartirei também a minha fome mas, e sobretudo, repartirei até o que é indivisível. Tu sabes onde estou.
Sabes como me chamo. Estarei presente quando já mais ninguém estiver contigo, quando chegar a hora decisiva e não encontrares mais esperança, quando a tua antiga coragem vacilar. Caminharei a teu lado. Haverá, decerto, algumas flores derrubadas, mas haverá igualmente um sol limpo que interrogará as tuas mãos e que te ajudará a encontrar, entre as respostas possíveis, as mais humildes, quero eu dizer, as mais sábias e as mais livres.
Conta comigo. Sempre.

Joaquim Pessoa