Peço-te

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar.

Falemos dos brilhos estilhaçados
desta casa súbita que é o teu corpo
devoluto. A noite devora as palavras possíveis,
o sofrimento que pulsa em tua boca
e torna a minha boca vulnerável.
O amor é um nada que a liberta, uma luz
que desce dos ombros para o ventre
e fecunda as sementes da tua virgindade,
essa que faz agora parte de uma dor quase
amigável, na lividez do tempo,
e que entregas em minhas mãos, beijando-as,
tornando-te parte dos meus versos, da
minha forma mais profunda de gostar
de ti.

Amar-te, é escrever-te.
Amar-te é deixar que me toques até ser teu,
até que te deites no meu corpo e adormeças
inteira dentro de mim.

Peço-te. Não pises as violetas
que trago no olhar. Cheiram a ti. São para ti. 
Um “bouquet” de palavras que floriram
neste tempo de amor.

JOAQUIM PESSOA, in GUARDAR O FOGO (livro a publicar)

Bom dia meu amor

“BOM DIA, MEU AMOR

Acordo-me. Acordo-te. Sorrio.
E sobre a tua pele que a minha adora, navega o meu desejo, esse navio que sempre parte e nunca vai embora.

E como um animal uivando o cio
de um milénio, de um mês ou uma hora, não sei se morro ou vivo, ou choro ou rio,
só sei que a eternidade é o agora.

E calam-se as palavras, uma a uma, feitas de sal, saliva, dor e espuma com a exacta dosagem da alegria.

Bom dia, meu amor! O teu sorriso é tudo o que me falta, o que eu preciso para acender a luz de cada dia.”
.
Joaquim Pessoa
in “Os Dias Não Andam Satisfeitos”

AGARRA-TE AO POEMA

AGARRA-TE AO POEMA

*

Se a luz da manhã te fizer tropeçar, agarra-te ao poema.
Se não conseguires suportar a solidão, agarra-te ao poema.
Se te rasteirar a mentira, não esqueças, agarra-te ao poema.
Se sentires que a verdade te faz fugir o chão, agarra-te ao poema.
Se o medo te impede de avançar, coragem, agarra-te ao poema.
Se a tua insegurança é mais forte do que tu, agarra-te ao poema.
Se alguém quiser fazer retroceder o teu sorriso, agarra-te ao poema.
Se uma dor insuportável te faz tremer as pernas, agarra-te ao poema.
Se o amor te deixar um dia abandonado e frágil, agarra-te ao 
poema.

Porque em cada circunstância a vida escreveu um poema
especialmente para ti.

*

Inédito de Joaquim Pessoa
QUE NOME DAR A ESTE LIVRO?, 
a publicar pela Editora Edições Esgotadas
em 2019.