Sabe-me a boca a nada

Sabe-me a boca a nada.

Sabe-me a boca a sombra.

Bebi a madrugada porque ela me deslumbra.

Matei a minha sede.

Esqueci a minha fome.

Soletrei as sílabas molhadas do teu nome.

E os pássaros que adejavam a luz do teu sorriso eram mais, muito mais do que é preciso para aninhar na minha carne a tua história, rainha das perguntas, princesa da memória.

Um dia hei-de servir-te palavras divertidas e colherei de um campo verde margaridas.

Beijarei tuas mãos, teus peitos, tuas ancas que cobrirei depois com essas flores brancas.

Farei muito amor contigo até de madrugada, até que a boca saiba a sombra e saiba a nada.

E tudo há-de depois recomeçar do zero.

Beberei de novo a madrugada em desespero, mas antes, gravarei, num dia como este, o meu e o teu nome na casca de um cipreste para que fique nesse tronco assinalado que o futuro tem presente e tem passado.

E então, minha rainha, princesa, meu amor, já podemos ir desta pra melhor.

Joaquim Pessoa

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