Dia 171

D I A     1 7 1 

Ofício de inocência sob os sabres do sol e o ferimento dos frutos.

Razão pura, como a de quem se esqueceu do nome das ruas azuis de uma canção, melodia antiga sobre o poema tão jovem como uma pomba adolescente.

Amo-te porque não poderia deixar de ser assim, e por isso vivo como se emti endireitasse paisagens dependuradas de tudo quanto sou.

No verão que te acende o corpo, apenas uma rosa se ergue sobre as dunas, recortada no azul, alimentando-se de pedacinhos de vento, definitivamente silenciosa na sua forma rubra de gritar.

O brilho dos meus nervos continua a cintilar quando desço as minhas mãos sobre as tuas ancas, ou as ancoro firmemente no teu peito durante cada tempestade de beijos.

As palavras, soltas como as ilhas de um arquipélago, entrecortam-te a respiração ofegante, e dão abrigo ao desejo de me transformar entre os teus braços, voltar a ser peixe aos olhos da paisagem, pescador de pérolas na tua boca, mergulhador na inebriante profundidade das grutas mais escuras do que em ti respira.

E tudo o que em mim é ainda criança, joga e brinca nos teus músculos beijados por uma luz tranquila que não será abandono nunca mais, antes festa solar, eclipse total de duas bocas que se vão fundindo até se tornarem sangue, serenidade e música.

E essa dulcíssima luz que nos acende a carne sob a pele, não quer senão iluminar cada um dos nossos dias, agora inspirados pelas mais transfiguradas noites de amor

Joaquim Pessoa 

in ANO COMUM – pág. 186

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