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Vivendo um teste civilizatório

Vivendo um teste civilizatório

Texto de Mário Corso, psicanalista, publicado na Zero Hora de 22/03/2020, edição digital

Um dia, um aluno perguntou à antropóloga americana Margaret Mead qual seria, na opinião dela, a primeira evidência de civilização. 

Provavelmente ele esperava que ela falasse de um artefato: uma clava, um anzol, pedras lascadas para cortar, uma lança, cestos para carregar comida. Os arqueólogos divergem sobre o alcance da importância dessas conquistas. E quais seriam propriamente humanas, já que a pedra, como martelo ou bigorna, é utilizada por macacos para abrir frutas e sementes.
Ela surpreende falando de um esqueleto de 15.000 anos encontrado por arqueólogos, cujo fêmur tinha cicatrizado. Ou seja, o osso do sujeito quebrou e voltou a soldar. Na natureza, osso quebrado é sentença de morte. 

Portanto, o dono desse fêmur teve alguém que o cuidou, abrigou, trouxe-lhe comida e água até sarar. Isso significa no mínimo sete semanas. Como foi numa época antes da agricultura, tratava-se de um caçador-coletor. Sabemos que esses povos não produzem excedentes, comem o que conseguem no dia. Provavelmente teve uma rede de cuidadores.

Para Mead, a solidariedade seria a marca inicial do que nos fez civilizados. Portanto, teríamos a evidência nesse osso que se recuperou. A história é tão redondinha que dá para desconfiar, mas encontra-se num livro do médico americano Ira Byock, referência em cuidados paliativos. 

Zygmunt Bauman, filósofo polonês, dizia medir uma civilização pela maneira como ela tratava os seus mais vulneráveis. Quanto mais cuidados dispensados aos que mais precisam, mas civilizada ele a considerava.

Não é à toa que o nazismo é o exemplo de inferno na terra, pois eles exterminavam justamente seus mais frágeis. Sociedade de zero compaixão. Pessoas não aptas eram mortas, isso incluía doentes mentais, crianças com paralisia cerebral, sindrômicos, enfim, fizeram uma faxina em todos não produtivos. E se fossem viáveis economicamente, mas homossexuais, judeus, ou ciganos, eliminação também.

Se estes pensadores têm razão, hoje estamos passando por um teste civilizatório: a maneira como vamos lidar com os nossos mais vulneráveis na atual crise. Estou me referindo aos mais velhos, que são as vítimas preferenciais do COVID-19.

A irresponsabilidade em não seguir as regras básicas de prevenção irá nos mostrar duas coisas: ou o analfabetismo científico, ou o desdém para com a coletividade em geral. No segundo caso, especialmente um desrespeito aos idosos.

Está na mão, não só dos governantes, o controle sobre o número total de vítimas. Este é o momento em que vamos descobrir o quanto realmente somos civilizados, cuidando aqueles que um dia nos ampararam. No fundo, entender o que devemos fazer, e seguir estritamente as recomendações, mostrará o quanto amamos e respeitamos nossos pais e avós.

Nota: o texto acima, do psicanalista Mário Corso, deveria ter sido publicado na edição impressa dominical de hoje (22 de março de 2020), no jornal gaúcho Zero Hora mas, por erro de impressão, não o foi, tendo sido publicado apenas na versão eletrônica do jornal.

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