Meu amor

Meu amor

no teu peito de coragem

feito de pedras e cardos

há um país de viagem

e vinhos de cada cor

verdes maduros bastardos.

Há uma pedra de cal

em cada olhar que respira

há uma dor que já dura

desde que dura a mentira

há um muro levantado

numa seara madura.

Verde mar

verde limão

são os teus olhos de medo

o vento é este segredo

que escreve em cada manhã

o nome dela na erva

numa folha numa pedra

nos bagos de uma romã.

Acendo-te uma fogueira

nas tuas mãos acordadas

dou-te flores de laranjeira

dou-te ruas dou-te estradas

dou-te palavras secretas

dou-te coragem e setas

dou-te os meus dedos crispados

ponho cravos amarelos

à volta dos teus cabelos

dou-te o meu sangue vermelho

e o meu canto proibido

Dou-te o meu nome

raíz

há muito tempo arrancada

dou-te esta calma guardada

nos homens do meu país

dou-te a fome

do meu canto

dou-te os meus braços em cruz

e as mãos feitas num crivo

dou-te os meus pulsos abertos

mas é por outra que vivo.

Joaquim Pessoa, Poemas da Resistência (1968/1971)

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