Partiu

Partiu quando a noite descia os seus véus. Tocou-se. Não se sentia manhã. Nem tarde. Da noite, só a cor dos seus olhos.
Apressou a passada. Insegura, cerrou as mãos, tocou os magros pulsos, acariciou o veludo negro do vestido.
Ah, quanto precisava de si para escrever um poema breve.
Palavras, só as que o silêncio ia quebrando. Doíam, estas palavras amachucadas, tão negadas, tão vazias. Há muito que a noite perdera o seu corpo, a sua respiração, o seu beijo. O desejo ficara à porta vezes demais impedido de entrar. Vezes demais chorara para dentro de si como caverna emudecida.
Noite com tantos outros nomes agora, perdia todo o sentido, a dança da sua pele, o agarrar do seu peito.
Da vidraça apenas se adivinhava o abandono. Uma não-existência, um deserto para atravessar sem sombras.

Lilia Tavares

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