O acusado

O ACUSADO

Quando eu nasci, já as lágrimas que eu havia

De chorar, me vinham de outros olhos.

Já o sangue que caminha em  veias pro futuro

Era um rio.

Quando eu nasci já as estrelas estavam em seus lugares

Definitivamente

Sem que eu lhes pudesse, ao menos, pedir que influíssem

Desta ou daquela forma, em meu destino.

Eu era o irmão de tudo: ainda agora sinto a nostalgia

Do azul severo, dramático e unânime.

Sal – parentesco da água do oceano com a dos meus olhos,

Na explicação da minha origem.

Quando eu nasci, já havia o signo do zodíaco.

Só, o meu rosto, este meu frágil rosto é que não

Quando eu nasci.

Este rosto que é meu, mas não por causa dos retratos

Ou dos espelhos.

 

Este rosto que é meu, porque é nele

Que o destino me dói como uma bofetada.

Porque nele estou nu, originalmente.

Porque tudo o que faço se parece comigo.

Porque é com ele que entro no espetáculo.

Porque os pássaros fogem de mim, se o descubro

Ou vêm pousar em mim quando eu o escondo.

Cassiano Ricardo  – (1895 – 1974).

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