Órfão

ÓRFÃO
José Klein

“O homem é o único ser que, ao nascer, nu sobre a terra nua, é abandonado ao vagido e ao pranto; e nenhum animal é mais propenso às lágrimas do que ele, desde o início da vida.” Plínio

Ser órfão é nascer no mundo tendo já de saída a mais dura incumbência: enterrar os pais.

Sem tempo para os primeiros tão necessários e importantes afetos maternos, as primeiras carícias, o olhar de aconchego, apresentando o mundo de forma tenra, o seio como porto seguro.

Sem espaço para a cumplicidade da fecundação que tem seu ápice na tríade pai, mãe e filho.

O cordão umbilical rompido, que deveria ser substituído por matéria mais grossa, entrelaçada, indestrutível como o amor, é descartado futilmente, assim como o restante ligado nele.

Não se escuta a voz aguda paterna como guardiã.

O primeiro sentinela dos sonhos está ausente.

Não existe proteção.

Ser órfão é ser apresentado a um velório imediato, onde os corpos dos que seriam naturalmente nossos primeiros amores, jazem, após o cortejo fúnebre do desprezo.

A vida tem altos e baixos, momentos de alegria, rodeios de tristeza.

Esperamos que pelo menos o destino seja amigo, colocando os desafios duros lá pela frente do caminho, quando nossas mãos encontram-se mais calejadas, nossos pés mais ásperos para que possamos suportar o piso escorregadio onde a queda é dura.

O órfão não tem direito a esse hiato.

A estreia de sua condição humana não é o desenho animado da infância, a comédia romântica da adolescência, muito menos o suspense, a aventura da sua carreira profissional.

O órfão é personagem do drama mais intimista.

Nada temperado, tudo servido de forma crua.

A orfandade é o abandono em sua máxima potência, mas ela também se faz presente em diversas situações.

Amizades não valorizadas.

Afetos desperdiçados.

Paixões não comungadas.

Famílias rompidas.

Pais excluídos.

Irmãos brigados.

Filhos soltos no mundo.

Todos nós somos órfãos de amores não correspondidos.

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