POEMA NONAGÉSIMO QUINTO

POEMA NONAGÉSIMO QUINTO

Haverias de entender se eu te dissesse
que não há nada de mais significativo na pobreza
do que a fome, e esse brilho imenso que provoca no
olhar. Haverias de entender se eu te dissesse que a poesia
se é para comer, também ela tem fome. Uma fome
que nunca estará extinta, que nunca deixará de consumir
o próprio poeta, esse ser que ama e que faz guerra
às próprias palavras. Uma fome de tudo, uma fome
de todos. Fome do que és, do que pensas, do que estás
pronto para pensar. Dos que ficam. Dos que partem
e dos que os acompanham. Das coisas bem e mal feitas,
do silêncio, dos tambores, e dos tambores do silêncio.
Fome do pecado, do fogo, do espanto e do azul.
Fome de mim, de ti. De fúria, de futuro. E das coisas
que não sabem nem encontram o caminho. Dos que
rezam, dos que cantam, dos que seguem as estrelas
e dos que olham o passado sobre os ombros de um tempo
que se busca a si mesmo. A fome litoral dos oceanos,
a fome dos homens da floresta e dos pássaros brancos
casados com o mar. Fome das ondas, das ostras, das
urtigas. E do rasto da cobra. E do ninho do pássaro
da noite, o extenuado rouxinol. Fome da fome, e fome
do amor. Fome do peixe, da maçã, dos frutos da alegria
que se colhem na carne e perfumam a boca, e fome,
eterna fome de estar feliz, de ser feliz, de ser assim
umas vezes, e de outras ser diferente. De nunca estar
bem, de nunca estar onde devemos, de permanecer
calados até na nossa fala. Oh, sim. Sim, sim. Tu
haverias de entender se eu te dissesse.

Joaquim Pessoa, in GUARDAR o FOGO, 2013

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